Como a mente se protege da dor? Compreenda, com Taiza Tosatt Eleoterio, o que é a anestesia emocional 

Emilio Marvento
Emilio Marvento
Taiza Tosatt Eleoterio

Taiza Tosatt Eleoterio descreve a anestesia emocional como um estado em que a mente “desliga” para suportar o excesso de dor, deixando a pessoa com sensação de vazio, distanciamento ou dificuldade de sentir tanto o que dói quanto o que alegra. Em geral, ela aparece depois de longos períodos de tensão, em que sentir tudo o tempo todo deixou de ser possível.

Esse recurso de proteção costuma passar despercebido, porque, de fora, a pessoa parece calma e funcional. Por isso, reconhecer o fenômeno ajuda a compreender que não se trata de frieza nem de falta de afeto, mas de uma resposta do psiquismo diante de um sofrimento prolongado, e que existem caminhos para reaproximar-se aos poucos das próprias emoções.

O que acontece quando sentir demais se torna insuportável?

Diante de uma dor intensa e prolongada, a mente busca formas de se proteger. Uma delas é reduzir a intensidade com que as emoções são percebidas, como se o volume de tudo o que se sente fosse abaixado para que a rotina continue possível. Esse movimento costuma acontecer de forma automática, sem que a pessoa decida ou perceba que está acontecendo.

De acordo com Taiza Tosatt Eleoterio, esse “desligamento” não deve ser confundido com ausência de sofrimento. Pelo contrário, ele costuma indicar que a carga emocional ultrapassou o que a pessoa conseguia processar naquele momento. Assim, essa anestesia funciona como uma pausa de proteção, útil em situações de crise, mas pouco saudável quando se prolonga por meses ou anos e passa a afetar a forma de viver e de se relacionar.

Como a anestesia emocional se manifesta no dia a dia?

Na prática, esse estado pode aparecer de maneiras discretas. Algumas pessoas relatam a sensação de estar “no automático”, cumprindo tarefas sem envolvimento, como se observassem a própria vida de fora. Outras percebem que já não se emocionam com situações que antes eram importantes, seja uma boa notícia, uma conversa afetuosa ou um momento de descanso.

Também é comum a dificuldade de nomear o que se sente. Quando alguém pergunta como a pessoa está, a resposta costuma ser “normal” ou “tanto faz”, não por indiferença, mas porque o contato com as emoções ficou embotado. Além disso, o cansaço persistente, o desinteresse por atividades antes prazerosas e a sensação de distância das pessoas queridas podem acompanhar esse quadro. Vale reforçar que esses sinais não configuram, por si sós, um diagnóstico, e que apenas um profissional pode avaliar cada caso com a devida atenção.

A diferença entre calma real e emoção “desligada”

Do lado de fora, a anestesia emocional pode se parecer com maturidade ou equilíbrio. A pessoa não se abala, não reclama e dá conta de tudo. Contudo, existe uma diferença importante entre quem está em paz e quem simplesmente deixou de sentir. A calma verdadeira permite sentir, reagir e se emocionar quando a situação pede, ao passo que a emoção desligada produz uma espécie de silêncio interno que não traz alívio real.

Para Taiza Tosatt Eleoterio, um bom indício dessa diferença está na capacidade de experimentar também as emoções agradáveis. Quem vive em calma consegue sentir alegria, ternura e entusiasmo; quem está anestesiado tende a ter essas sensações igualmente reduzidas. Dessa forma, a ausência de reações fortes diante da dor costuma vir acompanhada da ausência de reações fortes diante do prazer, e essa observação ajuda a diferenciar os dois estados com mais clareza.

Por que a anestesia aparece depois de relações e ambientes marcados por tensão?

Ambientes em que a pessoa precisou permanecer em estado de alerta por muito tempo favorecem esse tipo de resposta. Lares marcados por conflitos constantes, relações em que era preciso medir cada palavra e fases de grande sobrecarga emocional exigem um esforço contínuo de autoproteção. Quando a mente já não consegue sustentar esse esforço, ela diminui a sensibilidade como forma de preservar o que resta de energia.

Taiza Tosatt Eleoterio explica que essa resposta também pode surgir depois que o perigo passou. Muitas pessoas estranham o fato de, ao deixarem uma situação difícil, não sentirem alívio nem alegria, e sim vazio. Isso não significa ingratidão nem fracasso, e sim que a mente ainda está se reorganizando. Em outras palavras, o corpo e as emoções precisam de tempo para entender que já é seguro voltar a sentir, e esse tempo merece respeito.

O caminho de volta: como reaprender a sentir?

Reaproximar-se das emoções é um processo gradual, e a pressa costuma atrapalhar. Como orienta Taiza Tosatt Eleoterio, o primeiro passo consiste em reconhecer que a anestesia teve uma função de proteção e que, portanto, não deve ser vista como defeito. Esse olhar acolhedor reduz a autocobrança e abre espaço para que as sensações voltem aos poucos, sem que a pessoa se sinta invadida por elas.

Pequenas práticas ajudam nessa retomada. Prestar atenção às sensações do corpo, como o cansaço, a tensão ou o relaxamento, é uma forma suave de reconectar-se consigo. Da mesma maneira, dedicar alguns minutos do dia a atividades simples e agradáveis, como caminhar, ouvir uma música ou conversar com alguém de confiança, favorece o contato com emoções positivas. Além disso, contar com apoio profissional é especialmente importante quando o vazio persiste por muito tempo, pois a escuta qualificada oferece segurança para que a pessoa vá no próprio ritmo.

Quando sentir volta a ser possível

Diante de tudo isso, é possível compreender a anestesia emocional como um recurso da mente que, em determinado momento, ajudou a atravessar uma fase difícil. Reconhecê-la sem culpa é o que permite que, aos poucos, as emoções voltem a circular, inclusive aquelas que trazem alegria, conforto e sensação de pertencimento. Esse retorno raramente acontece de uma só vez, e cada pequeno movimento já é um avanço.

Taiza Tosatt Eleoterio ressalta que sentir novamente é um sinal de que a segurança emocional está sendo reconstruída, mesmo quando o reencontro com as emoções traz desconforto no início. Por isso, vale cuidar de quem está ao redor com a mesma delicadeza: perguntar com sinceridade como a pessoa está e ouvir sem pressa pode ser o primeiro gesto que a ajuda a perceber que já não precisa se proteger sozinha.

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