Mercado de capitais e crédito não performado: por que essa conexão está mudando a forma como o risco é administrado no Brasil?

Diego Rodríguez Velázquez
Diego Rodríguez Velázquez
Felipe Rassi

Em um ambiente de crescente sofisticação financeira, Felipe Rassi, especialista no mercado financeiro, comenta que a relação entre mercado de capitais e crédito não performado tem se tornado um dos fenômenos mais relevantes para a gestão de risco no Brasil. O que antes era tratado como um tema restrito às instituições financeiras passou a despertar o interesse de investidores, gestoras e empresas que buscam compreender as novas dinâmicas de geração e preservação de valor. Neste artigo, vale entender como essa conexão se fortaleceu e por que ela deve continuar influenciando a forma como os riscos são avaliados nos próximos anos.

A evolução do mercado financeiro brasileiro trouxe consigo uma mudança importante na percepção sobre os ativos inadimplentes. Se durante muito tempo eles foram encarados apenas como um reflexo das dificuldades econômicas, atualmente fazem parte de uma estrutura mais ampla, que envolve investimentos, gestão de ativos e estratégias de longo prazo.

Como os NPLs chegaram ao mercado de capitais?

A trajetória que levou os créditos não performados até o mercado de capitais passou pela evolução dos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios, os FIDCs. Esses veículos, regulados pela CVM e com estrutura de cotas sênior e subordinada, permitiram que carteiras de crédito, inclusive carteiras inadimplentes, fossem empacotadas e oferecidas a investidores com perfis de risco distintos.

De acordo com Felipe Rassi, a regulamentação dos FIDCs evoluiu ao longo dos anos e, com a Resolução CVM 175 e seus desdobramentos, o ambiente regulatório ficou mais robusto, atraindo investidores institucionais que antes evitavam esse tipo de estrutura. O resultado foi um aumento do volume de operações e uma maior profissionalização da indústria.

O desafio da due diligence em carteiras NPL

Adquirir cotas de um fundo que investe em créditos não performados ou comprar diretamente uma carteira NPL exige um processo rigoroso de due diligence. E aqui reside um dos pontos de maior diferenciação entre os investidores que obtêm resultados consistentes e os que acumulam decepções.

A due diligence em carteiras NPL vai muito além de verificar o valor nominal dos créditos e a taxa de deságio praticada. É preciso analisar a qualidade da documentação de cada operação, a situação jurídica atual de cada devedor, a existência e o estado das garantias vinculadas, o histórico de tentativas de recuperação anteriores e o estágio de eventual processo judicial em curso.

Felipe Rassi, como especialista jurídico, frisa que a documentação precária é o risco mais subestimado nas aquisições de carteiras NPL. Contratos com cláusulas mal redigidas, garantias não formalizadas adequadamente ou cessões sem notificação correta ao devedor podem tornar um crédito praticamente irrecuperável, independentemente do quanto o investidor tenha pago por ele.

A integração entre diferentes áreas se tornou indispensável

As operações envolvendo crédito não performado exigem uma visão cada vez mais ampla. Aspectos financeiros, jurídicos e operacionais precisam ser analisados de maneira integrada para que as decisões sejam tomadas com maior eficiência.

Felipe Rassi
Felipe Rassi

Essa realidade tem favorecido modelos de atuação mais colaborativos e estruturas capazes de combinar diferentes competências. Como consequência, cresce a importância de profissionais e equipes com visão multidisciplinar.

Felipe Rassi aponta que a complexidade das operações modernas exige uma abordagem que vá além das análises tradicionais e considere múltiplos fatores na construção das estratégias.

O papel da tecnologia na evolução da gestão de risco

A transformação digital também contribuiu para redefinir a maneira como os riscos são avaliados. Ferramentas de análise preditiva, inteligência artificial e sistemas de monitoramento avançados vêm ampliando a capacidade de identificar tendências e antecipar cenários.

Com maior volume de informações disponíveis, investidores e gestores conseguem construir estratégias mais precisas e reduzir níveis de incerteza. Ao mesmo tempo, a utilização de dados favorece processos mais ágeis e melhora a qualidade das decisões.

Esse movimento acompanha uma tendência internacional que associa tecnologia e eficiência como elementos centrais para a administração dos ativos financeiros, elucida Felipe Rassi. A incorporação de ferramentas mais sofisticadas tende a ampliar a capacidade de análise e favorecer estratégias de gestão de risco mais alinhadas às transformações do mercado.

O que esperar dos próximos anos?

A tendência é que a conexão entre mercado de capitais e crédito não performado continue se fortalecendo. O avanço das estruturas de investimento, a maior sofisticação dos participantes e a busca por novas oportunidades devem ampliar ainda mais a relevância desse segmento.

Felipe Rassi também percebe que fatores como governança, eficiência operacional e capacidade de adaptação tendem a assumir papel crescente nas decisões dos investidores. Em um cenário caracterizado por transformações constantes, a gestão de risco deverá se tornar cada vez mais integrada e orientada por dados.

Um novo olhar sobre risco e geração de valor

É notável que a aproximação entre mercado de capitais e crédito não performado representa uma das mudanças mais significativas observadas no sistema financeiro brasileiro nas últimas décadas. Mais do que uma resposta aos desafios econômicos, essa evolução revela como a capacidade de administrar riscos e identificar oportunidades vem se consolidando como um dos principais diferenciais para a construção de resultados sustentáveis em um ambiente cada vez mais complexo.

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

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