Uma reportagem da nova edição de VEJA traz detalhes da proposta de delação premiada de Julia Mello Lotufo, viúva do ex-capitão Adriano Magalhães da Nóbrega. Na negociação com o Ministério Público do Rio de Janeiro, ela dá nome ao mandante dos assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, lista autoridades que receberam propina para acobertar crimes e detalha a participação de Adriano e outros integrantes do chamado Escritório do Crime na execução de mais de uma dezena de pessoas. O MP ainda avalia se aceita a colaboração, que, se for formalizada, pode resultar na revogação da prisão domiciliar de Julia, acusada de participar de um esquema de lavagem de dinheiro proveniente das atividades criminosas de seu ex-marido.

A proposta de delação conta até agora com doze anexos, mas poderia ter pelo menos mais um. Nas conversas com o MP, Julia não narrou o que sabe sobre o esquema da rachadinha no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Ela só menciona Fabrício Queiroz, acusado de ser o operador do esquema, uma única vez, ao listá-lo entre 22 pessoas com quem Adriano mantinha amizade e/ou relacionamento de trabalho. Não há nada além disso, apesar de a viúva ter informações de sobra a respeito de Queiroz e da rachadinha. O faz-tudo da família Bolsonaro e o ex-capitão Adriano eram amigos de longa data e parceiros de transações financeiras.

Queiroz e Adriano trabalharam no 18º Batalhão da Polícia Militar, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, e participaram juntos de rondas que resultaram em pelo menos uma morte suspeita. No decorrer dos anos, a dupla pediu votos para integrantes do clã Bolsonaro em áreas controladas pela milícia e entre policiais militares. Amigo de Jair Bolsonaro desde a década de 1980, Queiroz intermediou a contratação de dois familiares de Adriano pelo gabinete de Flávio na Alerj: Raimunda Veras, mãe do ex-capitão, e Danielle da Nóbrega, ex-mulher dele. Segundo o MP, as duas foram funcionárias fantasmas e devolveram parte dos salários ao operador da rachadinha. Por isso, foram denunciadas como participantes do esquema.

Ao ser demitida do gabinete de Flávio na Alerj, em novembro de 2018, Danielle enviou uma série de mensagens a Adriano com referências a Queiroz, tratado como “o amigo”. “O amigo disse que fui exonerada”, informou, relatando estar sem dinheiro e com boletos para pagar. Adriano respondeu: “Contava com o que vinha do seu tbm (sic)”. Nas mensagens, os dois deixaram claro que seguiriam as orientações jurídicas passadas pelo “amigo”. A parceria se estendia para outras áreas.

Conforme revelado por VEJA, Adriano mandou entregar 80 000 reais em espécie para ajudar a pagar as despesas de Queiroz no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, onde ele realizou uma cirurgia. Enquanto Queiroz esteve hospitalizado, os filhos mais novos dele ficaram no Rio de Janeiro no apartamento de Adriano e Julia. A viúva viu e ouviu muito e dispõe, inclusive, de informações que podem ajudar a esclarecer pontos nebulosos da investigação sobre a rachadinha. Um caso é ilustrativo.

Ao pedir a prisão preventiva Fabrício Queiroz, em 2020, o MP relatou a realização de uma reunião no interior de Minas Gerais, no fim de 2019, da qual participaram Raimunda Veras, a mãe de Adriano, Márcia Aguiar, a mulher de Queiroz, e Gustavo Botto Maia, advogado ligado ao senador Flávio Bolsonaro. Segundo o MP, eles trataram de “um plano de fuga organizado para toda a família do operador financeiro que contaria com a atuação do então foragido Adriano Magalhães da Nóbrega”. VEJA descobriu alguns detalhes desse encontro.

Adriano mantinha com Julia uma comunicação ponto a ponto, aquela em que os celulares são programados para fazer ligações somente entre eles. Raimunda Veras, que não tinha relação de proximidade com o filho, pediu à nora que fosse a seu encontro no interior de Minas, alegando que gostaria de desejar feliz natal por telefone ao filho. Ao chegar ao local, Julia foi surpreendida pela presença de Márcia e de Botto Maia, que pediram a ela que ligasse para Adriano. Assim foi feito. No telefonema, eles tentaram extrair do ex-capitão informações que pudessem ser usadas para pressionar autoridades públicas a engavetar a investigação da rachadinha. Por exemplo: valores e beneficiários de propinas distribuídas por Adriano e seus comparsas. Ele se negou a responder.

Nos anexos de sua delação, Julia conta que um desembargador e um procurador aposentado eram informantes de seu ex-marido. Ela não contou aos promotores, mas a pessoas próximas costumava dizer, sem entrar em detalhes, que Queiroz visitava Adriano com frequência e fazia a ponte entre o ex-capitão e a família Bolsonaro. Só a viúva pode explicar o que era e como funcionava essa ponte. Sabe-se que Flávio, quando era deputado estadual, concedeu a maior honraria da Alerj a Adriano. Sabe-se também que Jair Bolsonaro, já como presidente da República, disse mais de uma vez que Adriano era um heroi. Ao negociar sua delação, Julia definiu bem quem são seus adversários e — tão importante quanto — quem são seus possíveis aliados.