Tomás Covas –//Arquivo pessoal

A doença de meu pai foi uma surpresa para mim e para todos. Ele contraiu uma erisipela na perna e os exames revelaram que, na verdade, era um câncer que já se desenvolvia há mais de um ano e se espalhava pelo corpo. Um dia, chegou perto de mim com muita calma e serenidade e me contou. Meu pai tinha a certeza de que ia conseguir vencer a doença. Falava dela com leveza, otimismo, até fazia piada. Jamais se entregou, e sou testemunha disso. Eu o acompanhava nas sessões de quimioterapia e via como ele ficava debilitado. Demorava às vezes cinco minutos para conseguir calçar um sapato. Mesmo assim, fazia questão de trabalhar. Chegou a levar a cama para o gabinete, e eu passei algumas noites dormindo a seu lado. Ele lutou, foi bravo o tempo todo, só que a metástase progredia e atingiu os ossos. Maldita doença que o levou da minha vida, mas nunca da minha cabeça, do meu coração.

A primeira lembrança que tenho de meu pai é a de uma campanha eleitoral. Eu estava com 5 anos e ele concorria à reeleição como deputado estadual. Eu me recordo de reuniões e eventos em que fazia corpo a corpo com os eleitores. Cresci no meio político, sempre o acompanhando. Durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff, aos 11 anos, passei dias no Congresso Nacional, vendo as articulações. Em uma das reuniões da bancada do PSDB, resolveram perguntar àquela criança se queria falar alguma coisa, e aí eu, claro, peguei o microfone, cutucando os adultos: “Afinal, vocês vão ou não vão apoiar esse negócio?”. No dia seguinte, apareci na primeira página dos jornais nos ombros de meu pai. Mais tarde, quando ele assumiu a prefeitura de São Paulo, passei a frequentar mais encontros, fui entendendo de política e me aproximei muito dele, meu orgulho e o melhor amigo que alguém poderia ter.

Mesmo tão novo, por toda essa experiência, não cheguei a ficar surpreso com o ataque de Jair Bolsonaro, em que ele se refere a meu pai como “aquele que morreu” e o critica por ter me levado no meio da pandemia à final da Copa Libertadores, entre Palmeiras e Santos. O presidente é um covarde que não sabe o que a palavra amor quer dizer. Meu pai sabia que ir àquele jogo teria um custo político alto, mas estava muito doente e quis ter esse momento com o filho. Em outras circunstâncias, acho que nem iria ao estádio. Eu me senti um pouco culpado, porque o combinado era assistirmos à partida em um camarote do Maracanã, mas insisti para ficarmos nas cadeiras mais próximas ao campo. Foi ali que fizeram o vídeo que viralizou. Apesar da derrota do Santos, nosso time do coração, foi um dos dias mais marcantes da minha vida, eterno na minha memória. Que bom que dividimos, eu e ele, aqueles minutos.

Perdi as esperanças de que meu pai resistiria ao câncer quando soube que seria sedado. Corri para o hospital e o encontrei dormindo na cama. Fiquei com ele até o último instante, segurando sua mão. Eu me despedi dizendo que ele tinha cumprido sua missão, de ajudar as pessoas, e foi e sempre será um exemplo para mim. Completei 16 anos, vou tirar o título de eleitor e me filiar ao PSDB. O governador João Doria me ofereceu um estágio no Palácio dos Bandeirantes. Devo passar três meses acompanhando o serviço público de perto, olhando tudo. Quero um dia entrar na política e levar adiante o legado do meu bisavô (Mario Covas) e do meu pai. Na família, a gente brinca que o sobrenome dá um empurrão, mas é como ser filho de cantor: só ajuda até o lançamento do primeiro CD. Depois, tem de trilhar o próprio caminho. Eu já comecei a trabalhar por uma causa justa: convencer os vereadores de São Paulo a batizar o Vale do Anhangabaú, revitalizado na gestão de meu pai, com o nome dele, Bruno Covas. Prometo honrar sua memória.

Tomás Covas em depoimento dado a Ricardo Ferraz

Publicado em VEJA de 18 de agosto de 2021, edição nº 2751