A pandemia da Covid-19 vem deixando sequelas mesmo em quem não foi infectado pelo novo coronavírus. Refiro-me às sequelas psicológicas, resultado de mais de um ano de quarentenas intermináveis e isolamento social. Estamos todos sujeitos ao estresse de nos vermos repentinamente presos em um “novo normal” marcado pelo distanciamento, mas poucos grupos vêm sofrendo tanto, do ponto de vista psíquico, quanto as crianças e os adolescentes.

Um estudo abrangente, coordenado pela Universidade de Calgary, no Canadá, concluiu que o número de jovens com algum tipo de transtorno mental dobrou durante a pandemia. Cerca de um quarto deles apresentou sintomas de depressão. Um em cada cinco dá sinais de ansiedade.

As causas para esse aumento preocupante são conhecidas. Com a suspensão da maioria das atividades presenciais, os jovens ficaram privados de interações sociais regulares por longos meses. Esse tipo de restrição cobra um preço particularmente alto dos que estão em anos formativos, período no qual moldamos nossa identidade e construímos ferramentas psicológicas de comunicação, convivência e inserção social.

O fechamento temporário das escolas contribuiu muito para o agravamento da situação. Em primeiro lugar, porque as escolas são o principal espaço de interação de crianças e adolescentes. Em segundo, porque cerca de 80% dos atendimentos psicológicos para esse público são feitos nas instituições de ensino. Ampliou-se, portanto, não só o número absoluto de transtornos psicológicos, mas a quantidade de transtornos que não receberam acompanhamento profissional adequado.

O quadro é o mesmo em todo o mundo. Os especialistas da universidade canadense reuniram e organizaram informações de outros 29 estudos, conduzidos na Ásia, Europa, América e Oriente Médio, incluindo uma pesquisa brasileira, realizada pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), em 2020, sob liderança da professora Marla Garcia de Avila. Ao todo, foram utilizados dados de cerca de 80 mil crianças e adolescentes, com resultados muito similares, independentemente do país. Um trabalho da Universidade de São Paulo (USP), finalizado em abril deste ano, chegou a números incrivelmente parecidos: das 7 mil crianças e adolescentes participantes, com idades entre 5 e 17 anos, pouco mais de um quarto (26%) apresentou sintomas clínicos de ansiedade e depressão.

O problema, que parece desconhecer fronteiras, é influenciado por circunstâncias socioeconômicas. A professora Marla ressaltou que a presença do pai ou da mãe em casa, trabalhando em home office, diminui o grau de ansiedade reportado pelas crianças – e o trabalho remoto, como sabemos, é muito menos acessível para pessoas de baixa renda e pouca escolaridade. A concentração de pessoas em casa também influencia esse indicador, pois famílias numerosas, que dividem uma única residência, contribuem para elevar o nível de ansiedade dos pequenos.

Cumpre observar que crianças e adolescentes são impactados de maneiras diferentes pelo estresse do isolamento social. A professora Leila Tardivo, do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP), explicou que uma das principais reações emocionais das crianças ao estresse do isolamento social é a irritabilidade, o comportamento mais impaciente e até agressivo. Já os adolescentes costumam demonstrar tristeza, solidão e tédio, sintomas de caráter depressivo.

Os pais precisam estar atentos a esses sinais. Organizar a rotina dos filhos, estabelecer horários relativamente fixos para acordar, se alimentar e dormir, contribui para diminuir o risco de transtornos psicológicos. É importante também compensar, na medida do possível, as atividades temporariamente suspensas, como brincadeiras e exercícios físicos.

No entanto, nada é mais urgente do que chamar a atenção do poder público para essa epidemia silenciosa que vem vitimando jovens no Brasil e no mundo. O sistema de saúde precisa se preparar para acolher esses milhares de pessoas que, muito provavelmente, precisarão de acompanhamento especializado para recobrar seu bem-estar psíquico após o fim da pandemia, ainda sem previsão. A saúde mental de crianças e adolescentes é um problema grave de saúde pública, a ser enfrentado com seriedade. Trata-se de um compromisso com o futuro do país.