Revelada em um projeto social na cidade de Nova Trento, em Santa Catarina, a oposta e ponteira Rosamaria Montpellier, de 27 anos, mostrou personalidade em sua primeira olimpíada defendendo a seleção brasileira de vôlei feminino. Destaque na reta final da campanha que culminou com uma medalha de prata para as brasileiras, a jogadora teve a responsabilidade de ocupar o espaço deixado por Tandara, cortada da equipe às vésperas da semifinal contra a Coreia do Sul por potencial violação antidoping – e brilhou. Embora admita que o anúncio da suspensão da companheira de seleção tenha sido um momento delicado, ela refuta a tese de que o baque levou à derrota para os Estados Unidos na disputa pelo ouro nos jogos de Tóquio. “O grupo se fechou e seguiu no objetivo, por nós e pela Tandara também. Mas, na final, o mérito foi todo dos EUA. Claro que a gente poderia ter jogado um pouco melhor, mas elas foram excelentes e mereceram a vitória.”

Efusiva nas comemorações, Rosamaria tornou-se um símbolo da seleção e gerou diversos ‘memes’ nas redes sociais, sobretudo após o duelo contra as atletas do Comitê Olímpico Russo, pelas quartas de final do torneio – a ponteira marcou 16 pontos na partida. “Eu acho que a galera se identificou com a garra, com a vontade de vencer a todo custo, de brigar com unhas e dentes”, diz ela. A jogadora também recebeu elogios de internautas por sua beleza. Antes de se tornar atleta profissional, Rosamaria foi convidada para ser modelo, mas preferiu a quadra. “Eu dou muita risada ainda. ‘Passo mal’ com as montagens que fizeram sobre mim no Twitter. O povo é muito criativo”. Recepcionada com festa no desembarque no aeroporto de Navegantes (SC), ela tem cumprido uma agenda ostensiva. Na sexta-feira 20, a medalhista recebeu o título de embaixadora do esporte catarinense pelo governador do estado, Carlos Moisés (PL).

A jogadora externa seu desejo de continuar se destacando e atuando em alto nível para se manter na seleção para a disputa da próxima olimpíada, em Paris. “A olimpíada é construída durante muito tempo. Agora já começa um novo ciclo olímpico e a gente já tem de pensar lá na frente e se preparar”, afirma. Convocada para o Campeonato Sul-Americano, que será realizado em setembro, na Colômbia, Rosamaria perdeu a companhia das jogadoras Fernanda Garay e Camila Brait, que se aposentaram da seleção. “Com certeza, o nosso time terá muitas mudanças até as Olímpiadas de Paris. Pessoalmente, o que eu posso falar é que eu quero trabalhar muito para estar nesse próximo ciclo olímpico. O nível do voleibol mundial a cada ano está subindo absurdamente. Então a gente vai ter de trabalhar bastante para chegar em Paris e defender essa medalha.”

Questionada se, apesar da medalha de prata na modalidade feminina, o vôlei brasileiro decepcionou em Tóquio, sem medalhas no vôlei de praia e com a seleção masculina, ela diz que os esportes precisam de mais investimentos no país. “A gente sabe que a olimpíada é um momento de visibilidade, mas os resultados são construídos durante os anos. Acho que, de maneira geral, a gente tem de abrir o olho para os investimentos em todos os esportes’’, diz Rosamaria. “A gente viu muita gente chegar na olimpíada sem uma preparação adequada. Muitos atletas contaram perderam patrocínio na pandemia. É preciso ligar esse sinal de alerta para os incentivos, principalmente na categoria de base”. Nesse sentido, a jogadora é madrinha do Projeto Voleibol Nova Trento, que atende meninas de 8 a 18 anos.

Sem tempo para folia, ela se prepara para atuar pelo Novara, clube italiano comandado por Stefano Lavarini, que trabalhou com Rosamaria em sua passagem pelo Minas. “A expectativa é grande, porque o Novara é um clube tradicional, campeão italiano e da Champions League, que é o campeonato mais importante de clubes do mundo”, revela. “Era um dos meus objetivos estar em um clube que jogasse a Champions. Estamos com um elenco forte, com várias estrangeiras além das italianas, jogadoras de seleção, e um técnico que é muito bom”.