O Brasil já deu mostras de união em torno de causas no passado. Eis que estamos diante de mais um momento assim em nossa história. Aliás, este talvez seja o momento em que a união de todos os brasileiros, indistintamente, será mais do que nunca fundamental. O que temos visto, porém, é uma politização do debate acerca da pandemia que compromete a capacidade de se tomar decisões sobre medidas para conter a disseminação do coronavírus. E isso quando nos aproximamos, em ritmo irrefreável, dos 300 mil óbitos causados pela doença. O que precisamos, mais que em qualquer outro momento até agora, é de muito equilíbrio.

Trata-se de uma situação extremamente difícil para o sistema de saúde brasileiro. As vertentes da sociedade envolvidas – e é difícil, talvez impossível, nomear alguma que não esteja – deveriam estar trabalhando juntas, em busca de alinhamento de discurso, entendimento e despolitização. O combate efetivo à doença, no ponto em que nos encontramos, demanda medidas de natureza impopular – e a que causa mais dissonâncias e resistências é o chamado lockdown. Muitos são contra o lockdown – eu entre eles. É a mais amarga das medidas. Mas se as outras, de natureza de saúde pública, falham, ficamos diante da ausência de alternativas. Já se tem notícia de pacientes no Rio Grande do Sul que têm de ficar em pé, ligados ao suporte de oxigênio, na porta dos prontos socorros. Esse é o ponto a que chegamos.

São preocupantes neste momento a vacinação inaceitavelmente lenta e a dificuldade para compra de imunizantes. A produção pela Fiocruz e pelo Instituto Butantan, que fazem um valoroso trabalho, está, no entanto, muito aquém da quantidade adequada para um país com mais de 200 milhões de habitantes. Assistimos agora a crise chegando aos insumos: começam a faltar kits anestésicos. Isso é o sinal acabado de catástrofe total. Sem os medicamentos necessários para intubação, de pouco adianta deixar leitos de UTI abertos e funcionando: não se vai ter como tratar as pessoas neles. A Anvisa tem tomado medidas para facilitar a importação desses produtos de forma mais ágil – mas aí batemos também nas dificuldades de logística adequada. Como dito antes, os 300 mil óbitos se aproximam, e lamentavelmente essa marca pode vir a ser superada.
A chave para começar a destravar essa situação passa por outra saída que acirra os ânimos: o setor privado. Defendi e mantenho a posição de que a iniciativa privada dispõe da agilidade necessária não só para negociar e comprar, mas talvez principalmente para distribuir. Não se trata, e jamais se tratou, de criar um canal exclusivo para quem disponha de meios financeiros. O foco sempre esteve, e nunca será diferente, nos pacientes considerados mais vulneráveis. O setor público pode ser administrado e cuidado pelo setor privado. Já temos isso acontecendo nos leitos hospitalares. O processo de vacinação já poderia estar acontecendo através do setor privado, com financiamento do SUS (Sistema Único de Saúde). Fosse assim, não estaríamos neste momento caudatários dos entraves próprios dos contratos de natureza pública.

Tanto para que se tenha um processo menos burocrático de licitação como para que a iniciativa privada faça parte do esforço e traga agilidade ao programa de imunização, é preciso pressionar. A pressão tem de ganhar musculatura. Cada um de nós tem de pressionar, para que isso desperte a sensibilidade de nossos governantes. Temos, claro, responsabilidade nesse processo também: evitar (e não estimular) a aglomeração; utilizar máscara no contato interpessoal; higienizar as mãos com água e sabão e álcool em gel. Mas parte dessa responsabilidade também é pressionar o governo para desburocratizar a compra de insumos neste momento. Mas, acima de tudo, e em nome da união, deixar de lado as bandeiras. Não importa se o Instituto Butantan é de SP, a Fiocruz é do RJ – a vacina é dos brasileiros. Não do presidente, não do governador. Dos brasileiros. Temos que lutar e fazer com que o governo se mexa.

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