A progressão geométrica de mortes e doentes, muitos à deriva em hospitais agonizantes – somada à aceleração dos índices de rejeição e à vinculação popular da pandemia com o presidente -, disparou a sirene de alerta do governo antes do “sinal amarelo” emitido por Arthur Lira (PP-AL). A ideia – e o comercial no horário nobre da arqui-inimiga TV Globo demonstra isso – foi lançar uma ofensiva de comunicação para tentar salvar, a qualquer custo, a combalida imagem do capitão.

Ciente da impossibilidade de apagar a sistêmica negação da peste, as sandices, os xingamentos e desrespeitos em série cometidos por Bolsonaro, disponíveis a um clique em áudio e vídeo, a comunicação do governo se esmerou em um plano para dar uma nova roupagem ao chefe. Mais serena, sem perder o jeito “sincerão”, menos belicosa.

A ordem de inverter a narrativa busca fazer com que as pessoas minimizem o que viram e ouviram e comprem o “mito” renovado, pró-vacina e empático com familiares e amigos de mortos e doentes.

O pronunciamento à nação, na última terça-feira, tinha esse intuito. Mas as mentiras acumuladas nos poucos mais de três minutos de rede – recebidas com panelaço nas grandes cidades do país – escancararam a manobra.

Na semana anterior, Bolsonaro já havia queimado o filme. Dias depois de o comercial entrar no ar, o presidente assinou, de próprio punho, ação contra os governadores da Bahia, Rio Grande do Sul e Distrito Federal, na qual requeria a inconstitucionalidade de decretos de restrições à circulação de pessoas. Seu pleito foi indeferido por questão de autoria, mas isso não anulou as consequências beligerantes de sua eterna birra contra a ciência e aqueles que a utilizam para tentar conter a veloz corrente de transmissão da doença.

Mesmo com essa derrapada no varejo, o atacado parecia correr bem. O ministro das Comunicações, Fábio Faria, conseguiu até mesmo afastar o guerrilheiro Fabio Wajngarten da Secom, colocando ali alguém mais dócil. E Bolsonaro topou suspender as agendas de inaugurações em pequenas cidades, com aglomerações programadas, material que vem sendo compilado para 2022.

O novo gancho era a troca do ministro da Saúde, tida como chave para colocar Bolsonaro na linha de frente. A partir daí, o presidente encarnaria a nova persona de líder da imunização em massa, um roteiro que incluiu apelos pela união nacional e partilha com os demais poderes das responsabilidades pela tríplice crise – sanitária, econômica e social.

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Nitidamente pouco à vontade no papel e usando máscara, que ele odeia, Bolsonaro até tentou se fazer convincente nas primeiras frases ditas após a reunião com os presidentes da Câmara, do Senado e do STF para tratar da pandemia e lançar um atrasado Comitê interpoderes. Mas irritou a todos ao falar do mal fadado tratamento precoce, como se desovar os milhões de comprimidos de cloroquina produzidos pelo Exército, com preços de insumos 167% a mais do que o praticado no mercado, fosse o mais importante.

Na sexta-feira, no cercadinho em frente ao Alvorada, repetiu a cantilena contra governadores e prefeitos. Sem máscara – ele e todos os seus seguranças -, Bolsonaro garantiu, entre uma selfie e outra, que o fechamento do comércio em São Paulo “vai acabar rapidinho”, como se anunciasse algum tipo de intervenção.

A fala, que de tão batida já nem mesmo soa como ameaça, não surpreendeu. Mas a falta da máscara que ele prometera usar reafirmou o embuste. Em menos de cinco minutos, Bolsonaro conseguiu pisotear no que talvez tenha sido o melhor slogan do governo para a pandemia – Pátria de máscara -, lançado pelo novo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, no mesmo dia em que seu chefe descartava a proteção.

Devido à personalidade nefasta de seu chefe, não se pode dizer que o esforço de Faria para salvar Bolsonaro é elogiável. Mas reconhece-se como gigantesco. A ponto de o ministro dizer, sem corar, que o inimigo de Bolsonaro e Lula é o mesmo: o vírus. Como se o ex Lula tivesse a mesma responsabilidade do atual presidente no combate à pandemia. Ou se qualquer um dos dois olhasse o mundo além de seus umbigos.

Faria também reage contra a pecha de negacionista que pesa sobre o presidente. Mas não tem o que dizer diante da “gripezinha”, do “não sou coveiro”, do “país de maricas” ou do “e daí?”. Muito menos quanto ao “virar jacaré”, “falar fino”, ditos do presidente sobre as vacinas, que viraram memes.

Como adjetivo, negacionista já estava popular quando agregou a versão substantiva do genocida. Nas redes, principal régua do presidente, os termos passaram a ser encontrados como sinônimos de Bolsonaro.

Sob a aura de campanha de utilidade pública, milhões serão gastos em publicidade com o mote da vacinação, até pouco tempo rechaçada pelo presidente. É mais uma das muitas farsas do governo, desta vez com a pretensão de apagar todos os males impostos por Bolsonaro ao país. Mas uma coisa é certa: mais de 300 mil mortes depois, não há marketing capaz de mascarar as consequências de seu negacionismo, o genocídio explícito.

Mary Zaidan é jornalista

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