Em entrevista a VEJA, Eduardo Leite revela conversas com Luciano Huck e João Doria, defende oposição “intransigente” a Bolsonaro na pauta de costumes, mas não na economia, e diz que é preciso se tornar viável eleitoralmente para tentar a Presidência.

Muita gente no PSDB já o lançou como pré-candidato à Presidência em 2022. O senhor quer e se sente preparado para a disputa? É natural que a candidatura presidencial apareça no horizonte de quem é governador do Rio Grande do Sul, a quarta maior economia do país. Mas não basta só ter habilidade e capacidade política, é preciso ser viável eleitoralmente. Sonhar com a Presidência é normal e eu me sinto com capacidade para contribuir nessa posição. Porém, se a oportunidade vai vir agora ou se vai demorar, só saberemos com o tempo.

Qual é a principal vitrine do seu governo? Eu herdei um estado falido. Por muitos anos, o governo gastou e conferiu privilégios demais. E, se boa parte das despesas é com pessoal, eu precisei fazer reformas duras no serviço público, na Previdência e nas carreiras. E nós só conseguimos realizá-­las por causa do diálogo. Ser considerado um candidato a presidente tendo de enfrentar essa realidade é no mínimo inesperado. O Rio Grande do Sul é conhecido por não reeleger seus governadores, imagine então alçar governadores à Presidência.

Desde 2018, Doria pretende disputar a Presidência. O senhor tem conversado com ele? Tivemos uma conversa por celular na quarta 10. E estamos combinando um encontro pessoal. Ele tem todo o meu respeito. Agora, eu acho importante ter nomes no plural à disposição. Só temos que conduzir o processo com serenidade para o centro sair fortalecido. A política deve servir para cicatrizar e não para abrir feridas.

O senhor também tem se encontrado com Luciano Huck. Ele pretende se candidatar? Já tive diversos encontros com ele em 2019 e 2020, o último foi em dezembro. Ele se mostrou disposto e tem revelado interesse em aprender. Mas seria desejável que fosse alguém com experiência anterior de governo, pois a máquina pública exige. A política é o anteparo que reduz a possibilidade de conflitos para dar espaço à ousadia da gestão.

Doria tem dito que o PSDB precisa levantar a bandeira do antibolsonarismo. O senhor concorda? O PSDB é oposição, mas não uma oposição sistemática, movida só por um interesse eleitoral, que impede o governo de governar. Nos arroubos antidemocráticos do presidente, precisamos ser opositores intransigentes. Mas na área econômica o governo tem pautas que se aproximam do que pensamos, apesar de mais modestas. A reforma administrativa trata apenas dos futuros servidores; a nossa, aqui, atingiu os contratados atuais. Na tributária, a deles só atinge impostos federais. Na economia, o papel do PSDB deve ser o de colaborar. Fomos relatores da reforma da Previdência, da reforma trabalhista, fomos fundamentais no marco do saneamento. É preciso melhorar o ambiente de negócios.

O que acha da ideia do presidente de armar a população? Sou contra. A arma gera falsa percepção de proteção e eleva o risco de ela reforçar o arsenal de criminosos, crimes passionais e descuidos de crianças.

E a pauta de costumes defendida por Bolsonaro? Conservar significa congelar. Imagine se há 100 anos as pessoas quisessem conservar os costumes da época em que negros eram escravos e as mulheres deviam satisfazer as necessidades dos maridos. É preciso evoluir em relação a costumes e revisar conceitos constantemente. Isso envolve questões de gênero e direitos iguais para todos.

Publicado em VEJA de 24 de fevereiro de 2021, edição nº 2726

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