China e Rússia chegaram ontem, dia 9, a um acordo inédito para construir e operar uma base na Lua. Ela poderá ser orbital, fixada na superfície ou − o mais provável − ter as duas configurações. As agências espaciais dos dois países também anunciaram que estão abertas a receber nações parceiras. A França, inclusive, já estaria sendo convidada a participar. O documento foi assinado virtualmente pelos diretores dos programas espaciais dos respectivos países, Zhang Kejian e Dmitry Rogozin, e tem dois significados históricos: lança um concorrente de peso para a Nasa nas viagens futuras ao satélite natural da Terra e praticamente encerra uma cooperação de duas décadas entre russos e americanos no espaço.

Apesar das diferenças ideológicas e divergências políticas, Estados Unidos e Rússia foram parceiros no setor. As respectivas agências espaciais de cada país, Nasa e Roscosmos, trabalharam juntas no lançamento, manutenção e utilização da Estação Espacial Internacional. Quando os voos do programa Space Shuttle (popularmente conhecido como “ônibus espacial”) foram cancelados pela Nasa, os russos é que ficaram encarregados de transportar mantimentos, equipamentos e astronautas para a estação. Mas tudo isso foi antes da SpaceX, da suspeita de espionagem de satélites americanos por dispositivos russos e, principalmente, da ascensão meteórica da China.

Em 2011, já antecipando o que se tornaria o programa espacial chinês − hoje capaz de colocar sondas no lado mais distante da Lua, trazer rochas de lá e enviar naves não-tripuladas a Marte −, o congresso americano aprovou uma lei que proibiu qualquer aliança aeroespacial da Nasa com a China. Por outro lado, a parceria entre Estados Unidos e Rússia começou a se desintegrar por causa dos crescentes atritos políticos, desconfiança mútua e a entrada definitiva da SpaceX no transporte de carga e astronautas ao espaço, o que praticamente dispensou os serviços da base russa de lançamento de foguetes no Cazaquistão.

O relacionamento azedou de vez quando os americanos puseram os russos de lado no programa Ártemis, que pretende levar humanos de volta à Lua até 2024, e no desenvolvimento da plataforma lunar orbital Gateway. Além disso, Estados Unidos e Rússia não chegaram a um acordo quanto às regras de mineração do satélite natural da Terra e, até onde se sabe, os russos nem foram convidados a sentar à mesa para negociar. O acordo entre as duas potências espaciais concorrentes da Nasa marca o fim de um ciclo na corrida espacial do século XXI e o início de outro, que deve deixar a disputa tecnológica entre China e Estados Unidos ainda mais acirrada.

 

 

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