O cidadão brasileiro, minimamente informado, atravessou a noite entrecortada por sonhos e pesadelos. Com injustificável atraso, o Ministro Fachin decidiu que a Justiça de Curitiba não tinha competência para julgar ações da Operação Lava Jato contra o ex-presidente. Filigranas jurídicas estão fora do meu parco conhecimento.

Prefiro falar em sonhos e, depois, pesadelos. Nestes casos os analistas costumam fazer contabilidades e previsões apressadas. Quem ganha e quem perde com o julgamento? Perde o povo brasileiro. Ganham as extremas. Vencem os que não acreditam no jogo democrático ainda que jogado com regras ruins, casuísticas, arquitetadas pelos oligarcas de sempre. Já está preparada a reforma que deforma: vem aí o distritão e para a cova rasa a “barreirinha” e a coligação nas eleições proporcionais.

Todos os implicados no maior feito do crime organizado de colarinho branco do mundo, sem distinção ideológica ou partidária (todos são corruptos), se deleitaram com acepipes, degustados com vinhos caríssimos financiados pelo nosso dinheirinho. Antes o que era feito às claras, ontem, foi festejado sob as luminárias das pérgulas das piscinas.

Fizeram um brinde ao eterno retorno ao país da sacanagem e da impunidade, reconstruído com engenho e arte por quem dá nó em pingo d’água, tira meias sem mexer no sapato e oferece encantos de rameira a qualquer DAS do governo.

Muitos deles não pregaram os olhos e brindaram a alvorada com um patriótico “já raiou a liberdade…….”.

O pesadelo tomou conta dos políticos e cidadãos que ainda acreditam no Brasil. Este solavanco veio na pior hora da nossa história: a das crises sobrepostas (politica, econômica, social e sanitária) que mata, a curto prazo, por conta de um desgoverno de “cabras machos” que desdenham dos “maricas” que fazem o que é certo; de uma gestão povoada pela incompetência e, mais grave, sem um gestor que se possa chamar de Ministro da Saúde. Mata a médio prazo porque a agenda só tem lugar para chafurdações em torno do mimimi das eleições de 2022. E mata a longo prazo porque ninguém investe num pária internacional.

Com o povo recluso e amedrontado diante da pandemia, resta a esperança nas instituições, apesar da qualidade de grande parte dos seus membros, como a arma que resta para manter a normalidade democrática.

Felizes dois atores, celebram abraçados, dizendo a uma só voz “Bolso você é minha obra perfeita e, você Lula, o candidato da minha preferência”.

Gustavo Krause foi ministro da Fazenda e governador de Pernambuco

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