Jair Bolsonaro costumava olhar para Washington em busca de inspiração. Poderia tentar de novo. Em vez de um tiro curto como o que deu no preço do óleo diesel, em busca de popularidade, ele veria que o presidente Joe Biden direcionou sua mira telescópica a um futuro no qual retomada do crescimento rima com baixo carbono.

Bolsonaro queria fazer um agrado aos amigos caminhoneiros. Achou que o preço do óleo diesel poderia cair 15%. Em busca do atalho, trocou a direção da Petrobras. Os efeitos colaterais foram queda de 4% na Bolsa de São Paulo e de R$ 100 bilhões no valor de mercado da empresa estatal.

O presidente reagiu com palavras de nacionalismo. O petróleo é nosso, argumentou, e não de alguns poucos. Pode funcionar bem para seu público interno, mas dificilmente vai dar certo. Basta lembrar o que aconteceu à outrora poderosa empresa petrolífera da Venezuela.

O tiro de Bolsonaro pode ajudá-lo a conseguir mais alguns votos em 2022. Mas ele talvez não perceba que o mundo está em transformação. E que, para ter sucesso nas próximas décadas, será necessário desenhar um novo modelo energético.

Até hoje, o Brasil é extremamente dependente de caminhões no transporte de carga. Isso já faria pouco sentido em um país de dimensões continentais. Fará cada vez menos sentido se os caminhões continuarem movidos a diesel enquanto o mundo inteiro busca a descarbonização da economia.

Novo plano

Esta não é uma conversa só de ambientalistas. O ex-presidente Donald Trump, maior ídolo de Bolsonaro, não ligava muito para essa questão de mudança climática. Tirou os Estados Unidos do Acordo de Paris e atacou as propostas apresentadas na campanha eleitoral pelo Partido Democrata porque elas, a seu ver, acabariam com empregos nos setores de óleo e gás.

Logo que ganhou as eleições, Biden recolocou seu país no Clube de Paris. Lançou inicialmente um plano imediato de US$ 1,9 trilhão para a retomada da economia, ainda duramente atingida pela pandemia. Agora prepara o lançamento de outro plano, no valor de US$ 2 trilhões.

Segundo informações que circulam na imprensa norte-americana, o plano terá como eixos centrais a recuperação da infraestrutura do país e o combate à mudança climática. Uma iniciativa ousada em busca de liderança em setores que serão fundamentais para o crescimento econômico nas próximas décadas.

Segundo a porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki, o plano de Biden “fará históricos investimentos em infraestrutura – na indústria automobilística, no trânsito, no setor de energia – criando milhões de bons empregos e, no processo, também enfrentando a crise climática”.

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Os detalhes ainda estão sendo negociados. Há setores do Partido Democrata que defendem a busca de um acordo com os Republicanos e outro que propõe um caminho solo, aproveitando a maioria na Câmara e no Senado. Caberá ao presidente bater o martelo.

Em seu plano de campanha, Biden prometeu alcançar a neutralidade em carbono na produção de eletricidade até 2035. Também anunciou apoio à redução do preço de tecnologias de energia limpa, como as de baterias mais eficientes e hidrogênio renovável. E apoiou a criação de linhas de transporte público com emissão zero de carbono em todas as cidades com mais de 100 mil habitantes.

Alternativas

Os Estados Unidos dependem menos de caminhões para seu transporte de cargas do que o Brasil. Apostam em hidrovias e ferrovias há muito tempo. Mesmo assim, empresas como a Tesla – até agora famosa apenas por seus automóveis – já anunciam a pré-venda de caminhões cujos gastos com energia seriam a metade dos gastos por caminhões movidos a óleo diesel.

Outros modelos de caminhões elétricos estão em desenvolvimento na China e na Europa. Assim como acontecerá com os carros de passeio, em breve serão estabelecidos prazos para que veículos pesados movidos a combustíveis fósseis deixem de circular. No caso da União Europeia, o ano é 2040.

O Brasil já começa a dar os primeiros passos. Pequenos caminhões produzidos no Rio Grande do Sul por uma iniciativa conjunta da Agrale e da FNM – renascida com o nome de Fábrica Nacional de Mobilidades – já entregam cervejas nas ruas do Rio de Janeiro. Os motores vêm da Europa e as baterias, dos Estados Unidos. Mas é um começo.

Sempre haverá o argumento do preço. Um país com o nível de desenvolvimento do Brasil não teria condições de renovar sua frota com veículos elétricos tão rapidamente como os Estados Unidos, a Europa e a China.

Mas há alternativas, mais baratas. Até 70% do diesel consumido no Brasil, por exemplo, podem ser substituídos por gás biometano, segundo estudo da Associação Brasileira de Biogás e Biometano (Abiogás). E o biometano produz 90% menos gases de efeito estufa do que o óleo diesel. Ou seja, uma solução quase tão atraente quanto a dos veículos elétricos.

Caminhos existem. Cada país terá seus desafios e suas possibilidades, naturais e financeiras. Mas a elaboração de um novo modelo de transporte, mais seguro e sustentável, menos dependente dos preços internacionais do petróleo e de seus derivados, exige visão de longo prazo. Algo que parece estar em falta no governo brasileiro.

Marcos Magalhães  escreve no https://capitalpolitico.com/

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