Max Weber, grande nome da sociologia política, dividia os políticos em duas categorias: os que vivem da política e os que vivem para a política, exercendo-a como um sacerdócio. Mario Covas, cujo falecimento completou 20 anos, foi um desses sacerdotes e, mais que nunca, é um grande exemplo de homem público para os tempos atuais do Brasil. Em sua trajetória – deputado federal, prefeito de São Paulo, senador e governador do Estado, encontram-se as três virtudes exigidas de quem faz política por vocação: paixão, sentimento de responsabilidade e senso de proporção. Ainda usando a teoria weberiana: Covas foi um raro caso em que a ética da convicção e a ética da responsabilidade andaram de mãos dadas.

A ética da convicção está presente em todas as passagens do seu discurso, como líder do MDB, quando do episódio Márcio Moreira Alves. Na época, foi protagonista de uma bela página do Parlamento que, em pleno regime militar, afirmava a sua independência.

Naquele 12 de dezembro de 1968, o Espanhol, como seus amigos o chamavam, foi inarredável na defesa das prerrogativas do Poder Legislativo. Suas palavras finais guardam uma extrema atualidade: “não permitir que um delito impossível possa transformar-se no funeral da democracia, no aniquilamento de um Poder, no canto lúgrebe das liberdades perdidas”.

No dia seguinte o regime baixou o AI-5, fechou o Congresso, suprimiu as liberdades e cassou mandatos de parlamentares, inclusive o de Covas.

O país mergulhava na noite mais escura de sua História. Mas ele estava com a consciência tranquila: “caímos, mas caímos de pé”. A quem o aconselhava a ir para o exílio, respondia: “não matei ninguém, não roubei, por que eu vou deixar o meu país?”. Esse era o Mario Covas da ética da convicção.

A mesma ética o levou a repelir a tentativa do então presidente Collor de cooptar o PSDB. Ali estava o seu senso de proporção. De fato, os tucanos – cujo partido tinha sido fundado um ano antes prometendo ficar longe das benesses do poder e perto do pulsar das ruas -, cometeria um desatino se aderisse a um presidente que mentira para se eleger. Sua sabedoria salvou o PSDB do vexame de ser parceiro de um presidente apeado por um processo de impeachment.

Tinha senso de responsabilidade e zelo com a coisa pública. Como governador, fez um ousado ajuste fiscal em um estado quebrado depois do populismo dos dois governos anteriores. Um destes antecessores, o ex-governador Orestes Quércia, se jactava: “quebrei o Banespa mas elegi meu sucessor”. A falência era de tal ordem que ambulâncias e carros da polícia não podiam rodar porque, diante da enorme dívida com a Petrobras, a empresa se recusava a fornecer combustível. O salário dos funcionários, que incluía pessoal das áreas da saúde, segurança e educação, estavam atrasados.

Para recuperar o poder de investimento do Estado, Covas promoveu o choque de capitalismo que pregara em sua campanha presidencial de 1989. Privatizou estatais como a Cesp e a Comgás, concedeu rodovias à iniciativa privada com modelagem onerosa, prevendo investimentos a exemplo da construção da pista descendente da rodovia dos Imigrantes, entre São Paulo e Santos.

Recebeu por parte do corporativismo e do Partido dos Trabalhadores uma oposição ferrenha, algumas vezes por vias nada democráticas. Não cedeu ao populismo, o que quase lhe custou a reeleição em 1998.

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Ao final do seu primeiro mandato São Paulo voltou a ter capacidade de investimento em áreas sociais, em especial da educação e na saúde, avançando em várias outras frentes, como moradia popular e transportes urbanos, com trens de superfície e expansão do metrô. O Estado passou a ter a melhor malha rodoviária do país e se tornou exemplo do cartesianismo clássico que ele próprio pregava: não há desenvolvimento social sem controle das contas – não se pode gastar mais do que se arrecada.

Como dizia o jornalista Clovis Rossi, Covas “tinha a alma de um político e a cabeça de um engenheiro”. Até mesmo seus adversários mais ferrenhos reconheciam duas virtudes suas. A austeridade e a coragem política.

Atento à liturgia do cargo, recusou-se a entrar e sair da Secretaria da Educação pelas portas do fundo, cuja frente estava ocupada por um grupo minoritário de professores grevistas. Literalmente os manifestantes levaram em consideração o discurso do então deputado José Dirceu de que iam “bater nos tucanos nas urnas e nas ruas”.

Covas foi apedrejado, mas manteve a dignidade do cargo. Tinha razão ao declarar: “no dia em que eu não puder entrar e sair de uma Secretaria do Estado deixo de ser governador”.

Era gigante e vinha de uma estirpe de políticos em escassez nos dias atuais. Não foi o único de sua era. Feliz o Brasil daqueles tempos em que se podia contar com Ulysses Guimarães, Franco Montoro, Fernando Henrique Cardoso, Tancredo Neves, Marco Maciel, José Richa, José Serra, Alberto Goldman, Arnaldo Madeira e tantos outros.

A morte o impediu a realizar a ambição maior: presidir do Brasil. Seria o candidato natural dos tucanos na sucessão de FHC. O sonho foi abortado no dia 6 de março de 2001 por um câncer com o qual vinha lutando desde 1998.

Duas décadas depois sua memória deve ser lembrada. É um exemplo para as novas gerações e para os que amam a liberdade e a democracia.

 

Hubert Alquéres é membro da Academia Paulista de Educação, da Câmara Brasileira do Livro e do Conselho Estadual de Educação. Foi professor em duas escolas importantes na vida de Mario Covas: o Colégio Bandeirantes e a Escola Politécnica da USP.

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