Os produtores brasileiros de vinhos finos — aqueles feitos com as uvas viníferas europeias, não as americanas, que originam tintos e brancos inferiores, como os de garrafão — não param de festejar. O motivo é a colheita de 2020, que qualificaram de “perfeita” e batizaram de “safra das safras”. “Foi a melhor da nossa história”, resume Deunir Argenta, presidente da União Brasileira de Vitivinicultura (Uvibra), que tem sede na cidade gaúcha de Bento Gonçalves. Esmagando as uvas colhidas entre janeiro e março do ano passado, os produtores elaboraram os ótimos vinhos finos que estão chegando ao mercado. Na maioria das 26 regiões vitivinicultoras nacionais, as condições climáticas se revelaram semelhantes, com índices de chuva baixos, dias ensolarados e noites frescas, determinantes para o amadurecimento uniforme das uvas.

A natureza premiou sobretudo o Rio Grande do Sul, responsável por 90% da vitivinicultura nacional. A “safra das safras” resultou em 24,2 milhões de litros de vinhos finos, um avanço de 56% em relação a 2019, segundo dados da Uvibra. Os de mesa, categoria que abrange os tintos e brancos comuns, também deram um salto. Cresceram 32%, conforme a empresa de auditoria paulista Ideal Consulting, especializada em bebidas e alimentos. Como sempre, porém, conquistaram mais lucros do que elogios.

Trata-se, portanto, de louvar a expan­são dos vinhos finos nacionais, em especial os reputados espumantes — uma saborosa realidade. “Não tenho a menor dúvida de que é o grande produto da nossa vitivinicultura, embora existam alguns brancos e tintos maravilhosos”, afirma o colunista Didu Russo, de São Paulo. A Master of Wine (honroso título britânico) e conceituadíssima crítica inglesa Jancis Robinson também elogia as borbulhas brasileiras. No fórum anual Wine Future de 2011, realizado em Hong Kong, Jancis contribuiu para instalar o Cave Geisse Brut, de Pinto Bandeira, no Rio Grande do Sul, entre os quinze vinhos internacionais mais recomendados.

O vinho espumante — que pode ser feito com esse nome em qualquer lugar do mundo — é a bebida da alegria e da celebração, condição na qual se equipara ao borbulhante champanhe, exclusivo da França. Daí o impacto sofrido em 2020, pelo cancelamento das festas de aniversário, casamentos, formaturas, Natal e réveillon. A produção nacional caiu de 13,5 milhões de litros em 2019 para os 12,6 milhões do ano passado. Mesmo assim, as maiores produtoras surfaram na onda dos novos hábitos. A Vinícola Salton, de Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, que detém mais de 41% do mercado interno brasileiro, cresceu 13%. Vendeu 10 milhões de garrafas, sendo 1,1 milhão para o exterior.

Outras reagiram com novidades. Enquanto a Salton lançou o Salton Extra Brut, de aroma frutado, notas florais e agradável cremosidade, a Vinícola Hermann, de Blumenau, em Santa Catarina, apresentou uma nova cuvée de prestígio, sua Lírica Crua 84 Meses, com sete anos de adega, pois é da safra de 2013, rica em aromas e elegante na boca. Já a Casa Valduga, de Bento Gonçalves, reapresentou seu espumante ícone Maria Valduga, com sessenta meses de maturação nas caves, em contato com as borras finas, intenso e complexo, de grande cremosidade. Ainda se destacaram na elaboração de borbulhas excelentes as vinícolas Adolfo Lona, Aurora, Chandon, Don Guerino, Estrelas do Brasil, Guatambu, Miolo, Valmarino e Viapiana.

LÁUREA - O 130 Blanc de Blanc, da Casa Valduga: empolgação no exterior –//Divulgação

Os prêmios internacionais deram fôlego aos espumantes nacionais. Segundo a Associação Brasileira de Enologia (ABE), só no ano passado eles conquistaram 147 medalhas pelo mundo. O 130 Blanc de Blanc, da Casa Valduga, venceu o concurso Vinalies Internationales, em Paris. Houve empolgação no país com a láurea inédita. Muitos ousaram acreditar que o 130 Blanc de Blanc de Bento Gonçalves “foi eleito o melhor do mundo”.

Espumante é um vinho de dupla fermentação natural. Esmagam-se as uvas na primeira etapa para seu mosto ou sumo fresco se transformar em bebida alcoólica; a segunda forma o gás carbônico, ou melhor, as borbulhas. Existem dois métodos principais para a segunda fermentação. No Charmat, ela ocorre em grandes tanques de inox, chamados de autoclaves. No Champenoise, conhecido como tradicional ou clássico, a segunda fermentação acontece na garrafa. Há também o método Asti, conhecido no Brasil por Moscatel, que se diferencia dos anteriores porque a segunda fermentação não é feita com o vinho pronto, mas com o mosto guardado da primeira etapa. Os três métodos são aplicados aqui, embora predomine maciçamente o Charmat. Proporcionam bebidas diferentes. Conforme o nível de açúcar, os espumantes Charmat e Champenoise podem ser classificados como nature, extra-­brut, brut, seco, meio seco e doce.

Mas, afinal, o espumante nacional tem personalidade própria, mesmo não sendo feito exclusivamente no Rio Grande do Sul, mas também no Planalto Catarinense, no Vale do São Francisco e agora no Sudeste? São regiões com solo, clima e temperatura distintos. Melhor seria concluir que não existe um estilo nacional. A não ser que se considere apenas os Charmat da Serra Gaúcha, como os da Salton, que elabora 90% dos seus espumantes por esse método, e a maioria das concorrentes que usa o mesmo no sul do Brasil. Nesse caso, trata-se de um vinho borbulhante fresco e jovial, com aromas delicados. “É o estilo preferido pelo brasileiro”, assegura Maurício Salton, presidente da Salton, que aproveita para dar uma boa notícia: na Serra Gaúcha, o clima se manteve em 2021 igual ao de 2020 e a uva, agora em final de colheita, está tão boa quanto na safra anterior. Um brinde ao espumante brasileiro, que nos ajudará a atravessar um outro ano difícil.

Publicado em VEJA de 17 de março de 2021, edição nº 2729

Continua após a publicidade