A simbologia dos atos, gestos e palavreados humanos podem revelar as entranhas do pensamento, do estado emocional e as estruturas da disposição psicológica ou mental. Os antigos diziam que os homens se leem pelo fundo dos olhos, enquanto na modernidade as pessoas são lidas de todas as formas: pelas expressões do corpo, pelo pensamento, pela ação, inação, pelo silêncio e até pela verbalização das palavras. Não é à toa que as pesquisas de opinião apontam antecipadamente o vencedor de uma eleição, não é à toa que as bigtechs andam descontroladas e desesperadas atrás de nossos dados nas redes sociais: dê-me seus dados que digo – e vendo – o produto que precisas.

Na simbologia do Natal, expressão máxima da magia, amor, fraternidade e confraternização, é possível identificar e comprazer com os símbolos que ajudaram a manter vivos e reais os sonhos e as utopias que ele inspira. É possível encontrar, dentro de nós, aqueles fatos e acontecimentos extraordinários que devolveram a esperança e fortaleceram a crença coletiva da existência virtuosa em cada um de nós.

Os debates, enfrentamentos, confrontos e construções no universo do combate do racismo estrutural, no Brasil, ganharam fôlego e assumiram maioridade, principalmente, com o impacto, reflexo e repercussão do episódio do assassinato do cidadão negro americano George Floyd, asfixiado por policiais da cidade de Minneapolis, naquele país, e, com o assassinato do cidadão brasileiro João Alberto Silveira Freitas, a socos e pontapés e asfixia por seguranças do Supermercado Carrefour, na cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul.

Essas ocorrências no seu simbolismo nos apontaram nossa impotência para prover as medidas indispensáveis para sua resolução e mostraram o elevado grau de ruptura do tecido social promovido pelas estruturas do racismo e suas nuances. Escancararam a capacidade brutal de destruição pessoal e institucional, e a cruel desumanidade a que são submetidos os brasileiros vítimas do racismo, nos ambientes públicos e privados. Razão pela qual todos os esforços na sua superação se apresentam como inexoráveis e urgentes.

Todavia, três acontecimentos recentes, no seu conjunto, constituem fortes manifestações da vontade e possibilidade para criar e superar a inércia e imobilismo, dessa questão, e, com isso, pavimentar um caminho em direção à nova civilização. Pela força da simbologia parecem indicar que nem tudo está inapelavelmente perdido e que há muita luz no final do túnel.

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No dia 11 de dezembro, Policiais Militares de São Paulo que anteriormente havia participado de uma abordagem e acompanhamento tido como inadequado e constrangedor a um grupo de negros participantes de uma caminhada de turismo étnico no centro velho de São Paulo, se colocaram do outro lado balcão. Na companhia dos agentes negros refizeram o trajeto como bons ouvintes e observadores. Conheceram o histórico do trajeto, revisitaram a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, onde os negros no sincretismo possível adoravam e reverenciavam seus deuses africanos, conheceram na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, a sala em que Luiz Gama esfregava o chão todos os dias. Na estação Liberdade do Metro conheceram, por fim, o Cemitério dos Aflitos, onde os negros escravizados que fugiam em busca da liberdade eram executados e enterrados. Foi o suficiente, para que esses policiais, ao final do tour, de forma surpreendente e espantosa elevassem as mãos ao alto, e com punho cerrado, repetissem o gesto de rebeldia e afirmação de direitos e dignidade aos negros reivindicado pelos panteras negras, no auge da luta racial americana. Ou seja, uma luta justa deve ser luta de todos, inclusive da policia.

No dia 8 de dezembro, no Parque dos Príncipes, em Paris, num jogo de futebol da Liga dos Campões entre Paris Saint Germain e Instambul Basaksehir, a régua subiu e o agressor racial foi um dos juízes. Mas a régua subiu, definitivamente, quando os dois times decidiram abandonar o campo juntamente com o ex-jogador camaronês Pierre Webo. Pela primeira vez na história do racismo no futebol, o jogador negro não saiu sozinho e chorando. Todos saíram com ele, num sinal eloquente de solidariedade e fraternidade humana. O racismo agride a todos e deve ser combatido por todos.

Em São Paulo, um grupo de pais de alunos dos tradicionais e caríssimos colégios particulares embranquecidos de São Paulo, criou o Movimento por Escolas Antirracistas e a Liga por Escolas Antirracistas para combater o racismo nesses ambientes e exigir equidade racial no corpo docente, discente e diretivo, a revisão integral do currículo e a discussão do racismo estrutural nas suas atividades formativas. Despertados do sono dogmático, esses pais, definitivamente, compreenderam que o racismo inoculado nessas escolas, segundo suas observações, reverbera na rua, entre outros, na forma como a polícia trata o negro. Certamente, também nas demais violências raciais. Descobriram, ainda, que, como está seus filhos estão sendo educados dentro de uma bolha que os tornam insensíveis e desconectados da realidade e diversidade do mundo real. Isto é aprendem pela metade a complexidade da vida.

Se os símbolos estiverem certos e energizados para seguir adiante, estaremos assistindo ao levantamento de uma trincheira poderosa de combate ao racismo, superação da discriminação contra os negros e engrandecimento da diversidade social e racial e sua força criativa. E, mais, uma nova e robustecida consciência, um novo e assertivo posicionamento; e o fortalecimento do exército do bem para confrontar os malefícios e destrutividade do mal do racismo. Como diria D’Artagnam aos demais Mosqueteiros: um por todos, todos por um.

Sob essa perspectiva, a fraternidade e o amor venceram, e na sua simbologia fez-se o espírito do Natal. Então, apesar dos pesares, é Natal. Feliz Natal a todos!

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