No próximo 13 de maio, é celebrado o 133º aniversário da Lei Áurea, decreto outorgado pela Princesa Isabel que aboliu, de vez, a escravatura em todo território nacional – ou ao menos era isso que deveria ter acontecido. Nova aposta da HBO, a série documental Escravidão no Século XXI chega ao canal nesta terça-feira, 4, às 21h, e examina a situação do trabalho análogo à escravidão no Brasil contemporâneo com participações de autoridades, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Em cada um dos cinco episódios, a produção se debruça sobre as condições que caracterizam o regime de exploração, quer seja pela forma com que ele se perpetua no país, quer seja pelas diversas facetas que pode assumir.

A VEJA, o diretor Bruno Barreto (Dona Flor e Seus Dois Maridos e O Que É Isso, Companheiro?) conta sobre o processo de produção e o tipo de conscientização que a série documental busca gerar. Confira a entrevista abaixo:

Por que a decisão de fazer uma série documental sobre a escravidão contemporânea? Eu li um livro do Ricardo Rezende há exatamente cinco anos, o Pisando Fora da Própria Sombra: A Escravidão por Dívida no Brasil Contemporâneo (Editora Civilização Brasileira). É como se fosse o caso zero do trabalho escravo no século XXI, em que o explorado, o Zé Pereira, foge da fazenda em que era escravizado com outros dois companheiros. Quando os capatazes vão atrás deles, os outros dois morrem e ele se finge de morto. Os corpos são então jogados na fazenda Brasil Verde, condenada na ONU em 2017, e o Zé se salva. É uma história incrível que renderia uma trama com muitas viradas, mas decidimos fazer uma série documental, porque a escravidão contemporânea é um fenômeno mundial. Tem no Brasil e tem em outros segmentos, por exemplo o sexo e a escravidão, com cafetões no Rio de Janeiro, e a globalização, com bolivianas na indústria da moda em São Paulo. Então dividimos em episódios. A história do Zé Pereira é a do segundo.

Já conheciam essa realidade? Se surpreenderam com alguma coisa que viram? Conhecia pelo livro, mas é completamente diferente viajar do norte do Piauí ao sul do Rio Grande do Sul. Nós visitamos os quatro cantos do Brasil, e o que me interessa nessas histórias é a condição humana. Não queria fazer uma série didática sobre a escravidão contemporânea, mas que a causa chegasse no telespectador através da emoção. Me interessa o lado dramatúrgico da realidade.

Desde o ano passado, o movimento do Black Live Matter acendeu a pauta racial em produções cinematográficas. Como a série documental se encaixa nesse cenário? Não entramos nesse assunto, porque escravidão contemporânea não acontece só com negros. Nós fizemos o contraponto entre a do século XIX e a atual em um episódio, quando visitamos um quilombo no sul do Piauí, e em muitos sentidos a atual é até mais cruel que a tradicional. Lá, os escravizados eram comercializados, então, bem ou mal, deveriam ser tratados com certo cuidado pelos senhores de engenho. Hoje não. Hoje os escravizados são completamente descartáveis, e o pior: mesmo quando são libertados, reincidem por não existir outra alternativa. Eles preferem a exploração à miséria, porque pelo menos têm onde dormir e o que comer. A escravidão atual é muito mais cruel e muito mais invisível.

Ir para Escravidão no Século XXI depois de Dona Flor e Seus Dois Maridos e O Que É Isso, Companheiro? é uma mudança grande. Que tipo de cuidado teve de tomar nessa produção?
Minha maior preocupação foi emocionar sem manipular. É uma linha muito tênue, e é muito mais fácil construir uma ficção, porque o documentário esconde o fato de ser um recorte da realidade. Eu penso que produções documentais são travestis, ou seja, pretendem ser a realidade, mas nunca são, porque o próprio processo de gravação e edição molda a informação. Eu acho até que a ficção é muito mais honesta que o documentário. Mas eu procuro sempre fulanizar, até porque todas as histórias que eu ouvi parecem coisa de ficção. O que me interessa é o ser humano.

A escravidão contemporânea é uma tragédia anunciada há bastante tempo e não é incomum vermos denúncias desse tipo de exploração. Que tipo de conscientização a série quer gerar? Nossa série quer confrontar a sociedade, que sabe que o trabalho escravo existe, mas não age para que acabe. Como diz o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso na série, a escravidão é uma consequência, o problema é a desigualdade social. Por mais que se reprima o trabalho escravo, o explorado reincide por não ter outra opção. E não é à toa que exista no mundo inteiro. O Brasil é uma referência no combate ao trabalho escravo, foi pioneiro, mas acontece na China, nos Estados Unidos. É essa a conscientização: o trabalho escravo só existe porque a miséria existe.

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