Nunca tive receio das checagens realizadas pelas equipes de migração, qualquer que fosse o país. A única vez que precisei aguardar um pouco mais para aprofundar as minhas repostas foi por um motivo pitoresco.

Estava chegando com minha família no aeroporto em Nova Iorque. Levava dois vidrinhos de azeite de dendê. Um pedido de amigos carentes deste ingrediente tão específico da culinária baiana.

Ao ser questionado pelo agente de migração se levava algum produto que pudesse infringir as normas sanitárias daquele país, tendo dúvidas, informei que levava azeite de dendê.

Eis o problema, como se fala dendê em inglês? Expliquei do que se tratava, o agente foi ao Google e fez-se a luz. Chegou a ser engraçado. Em seguida, fui liberado.

Hoje, com a deterioração da imagem que o nosso País carrega no exterior, estamos praticamente impedidos de retomar esses eventos em família. O meu passaporte será alvo de um alerta nas telas dos computadores por ter sido emitido pelo governo brasileiro?

Como somos vistos lá fora? Potenciais vetores da perigosa variante P1 da Covid-19? Um dos países que pior se comportou no embate contra a pandemia?

A resposta será sim a todas essas perguntas.

Fomos inseridos, por diversos governos estrangeiros, nas listas restritivas de viajantes que devem submeter-se a rigorosa quarentena antes serem liberados para o trânsito normal.

Lá fora, aqueles que sempre nos olharam com admiração como o berço do carnaval, do futebol arte, da bossa-nova, da alegria estão apavorados com o que se passa por aqui.

Os jornais de todo o mundo circulam mostrando as festas clandestinas. Não importa se na comunidade ou na zona nobre das grandes cidades.

Comentam em primeira página a falta de liderança para executar um plano minimamente capaz de prover nossa população das vacinas salvadoras. Ou, as afrontas a provas científicas corroboradas em grande universidades e centros de pesquisas.

As análises dos nossos governantes não ultrapassam o nível da água na canela (jargão militar para indicar pouco aprofundamento no estudo das condicionantes que levem à decisão).

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As portas do mundo se fecharão a todos nós, tanto mais, quanto mais formos inconsequentes no enfrentamento da pandemia.

Imagino que nos identificam como os anjos da destruição, portadores da estrovenga que ceifará suas vidas.

Domingo (07 de março), uma comitiva brasileira com status diplomático, em visita ao Estado de Israel, foi admoestada para adequar-se às normas sanitárias deveras rigorosa daquele País. Uso obrigatório de máscara, exame PCR com 72 horas de antecedência, impedimento de circular livremente, distanciamento, cumprimento com cotovelo.

Quando o medo nos domina, nos fechamos em copas. É compreensível a conduta protetiva de tantos governos para impedir novas ondas de infectados e em consequência de mortos pelo SARS-Cov-2, da COVID 19.

O que não pode ser admitido é o nosso modo de agir em sociedade. Não somos membros de uma seita (lembrei-me do episódio com o fanático reverendo Jim Jones), na qual um líder nos convence da grandeza do suicídio (metafórico ou real) e aceitamos seguir em fila indiana para o abate.

Se a importante questão sanitária não é compreendida na devida dimensão por nossos governantes, que meditem sobre o texto do Jornalista Demétrio Magnoli: “a balança geopolítica tenderá a se inclinar para o lado das sociedades imunizadas, que poderão reabrir, com segurança, as suas economias e as suas fronteiras.”

Uma nova Era aflorará pós-pandemia. Os conceitos políticos, econômicos, militares, psicossociais e diplomáticos se ajustarão drasticamente aos novos tempos.

Na segunda Guerra Púnica, o General cartaginês Aníbal exortou seus subordinados, na (im)possível travessia dos Pirineus e dos Alpes com elefantes de combate: “ou acharemos o caminho, ou então o construiremos.”

Será preciso reunir tal determinação para achar ou construir nosso caminho. E, sobretudo, decidir, em momento tão adverso, que os elefantes velhos e viciados não farão a travessia. Não temos opção. Não podemos ser mais párias do que já aceitamos ser.

Paz e Bem!

 

Otávio Santana do Rêgo Barros é general do Exército e ex-porta-voz da presidência da República. Escreve aqui às quartas-feiras 

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