Internada por 9 meses após contrair Covid, mulher recebe alta no RS: ‘Ela disse que iria voltar’, lembram filhas

bailey aschimdt
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Leonira Veloso, de 66 anos, chegou a ter alta e a ficar em casa por três semanas entre os mais de 250 dias de internação, mas precisou voltar ao hospital em razão de complicações da doença. Paciente recebe alta após 9 meses de tratamento contra Covid no RS
Uma professora aposentada de Portão, na Região Metropolitana de Porto Alegre, recebeu alta do tratamento de Covid-19 no dia 28 de julho, uma quarta-feira. A comemorada saída da Santa Casa de Misericórdia, com balões e aplausos, não foi sem motivos (veja vídeo acima). Além de superar a doença, Leonira Veloso, de 66 anos, venceu nove meses de internação.
A paciente não chegou a permanecer todo o período hospitalizada, ficando cerca de 20 dias em casa, entre a primeira internação e a segunda, na Capital. Ainda assim, Leonira esteve aproximadamente 250 dias em um leito, passando, inclusive, datas comemorativas, como o próprio aniversário, no dia 9 de março, sob atendimento médico.
“A gente não tem palavras para agradecer a Deus e a todas as pessoas que estiveram do nosso lado”, diz a filha Aline.
Agora em casa, Leonira se recupera de algumas sequelas. A aposentada precisa do auxílio de uma cadeira de rodas para se locomover e tem dificuldade para ouvir. Ela já se alimenta e se comunica com a família e não apresenta problemas cognitivos.
Dona Leonira recebeu alta da Santa Casa de Porto Alegre no dia 28 de julho
Arquivo pessoal
Primeira internação
Uma das filhas da dona Leonira, Fabiana descobriu um aneurisma cerebral em agosto de 2020. Com a cirurgia marcada para outubro, ela foi acompanhada pela mãe no procedimento. A família acredita que, nessa ocasião, ambas tenham se contaminado com o coronavírus.
“Eu operei numa quarta-feira e voltei para casa no domingo. À noite, a mãe sentiu febre e já foi para o hospital. Minha irmã, Aline, levou ela. Lá eles já fizeram o teste, baixaram e ela já testou positivo para a Covid”, conta.
Leonira ficou internada por cinco dias em Montenegro, a 61 km de Porto Alegre. Entretanto, um dia após ser liberada, a aposentada voltou a apresentar os sintomas da doença, sendo hospitalizada na Santa Casa, na Capital.
A mãe já precisou ser intubada, em razão da gravidade do caso. Fabiana conta que, por telefone, Leonira disse às filhas que voltaria.
“Ela disse que não era para chorar. Era para esperar, que ela iria voltar. A gente sempre brincou que a mãe cumpre o que ela diz. Se ela disse que iria voltar, ela iria voltar. Mas foi bem difícil”, lembra Fabiana.
A trilha sonora nos momentos mais difíceis era a canção ‘Tá chorando por quê?’, da dupla sertaneja César Menotti & Fabiano. “Ela cantou muito a música”, diz a filha.
Neste primeiro momento, Leonira ficou na unidade de terapia intensiva. A aposentada ainda sofreu uma infecção urinária e problemas cardíacos, além de ter contraído uma bactéria.
“A gente rezou muito. A gente é uma família de muita fé. A mãe é uma pessoa muito conhecida na nossa comunidade, foi professora, diretora de escola, conselheira tutelar, secretária de Assistência Social, ou seja, todo mundo conhece ela. O pessoal se uniu em oração, de diferentes credos. A gente tem certeza que foi isso que trouxe a mãe de volta”, acredita a filha Aline.
A gratidão da família se estende à equipe da Santa Casa, como médicos, enfermeiros, auxiliares, profissionais da limpeza e da portaria.
“A gente deixou um mimo [presente] para todo mundo, mas isso é irrisório perto do que eles fizeram”, comentam as irmãs.
Extubada em novembro, Leonira foi liberada da UTI em dezembro. A gravidade da doença fez com que a idosa perdesse o movimento dos músculos, em razão da fraqueza.
Menos de duas semanas depois, a aposentada precisou ser levada de novo para o tratamento intensivo. Naquela época, contudo, aumentava o nível de ocupação de leitos. Assim, mesmo internada, teve que aguardar dois dias pela liberação de uma vaga.
“A gente passou o Natal sem ela, o Ano Novo sem ela, as férias todas”, dizem as irmãs.
Em janeiro, na manhã do dia 16, a família ficou aliviada com a notícia de que Leonira tinha sido extubada. A tranquilidade durou pouco, no mesmo dia, a mãe havia piorado, sendo necessária uma nova intubação. “O nosso pai brincou que foi o VAR”, recordam Fabiana e Aline, na referência ao árbitro de vídeo do futebol.
Leonira passou por uma traqueostomia, ainda naquela data. Foram mais 15 dias de UTI, para que a paciente pudesse ser liberada para um leito clínico. A idosa fez duas cirurgias no joelho, por problemas causados pelas complicações.
Enfim, no final de março, a aposentada recebeu alta. Ela foi levada para a casa da família na praia, em Xangri-Lá, no Litoral Norte, onde uma estrutura de atendimento foi montada para recebê-la.
“Nós ficamos esses 20 e poucos dias em casa, fazendo fisioterapia todos os dias. Sempre em contato com o médico. Aí a perna piorou. Voltamos para a Santa Casa de novo e saímos só em julho”, afirmam as irmãs.
Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre
Reprodução / RBS TV
Segunda internação
Na segunda internação, Leonira fez mais duas cirurgias no joelho e retirou um pedaço da tíbia, onde a bactéria atacou.
“Ela não é cardíaca, não é hipertensa, não é diabética. Ela não tinha comorbidades. O que esse vírus fez com ela… Perdeu a audição, a visão, o cabelo. Agora ela está recuperando”, detalham as irmãs Fabiana e Aline.
Aline fala do medo da Covid-19 e faz um alerta para quem desconfia dos perigos que a doença pode provocar.
“Eu respeito o vírus, porque não tem como achar que dá para aglomerar, achar que não faz nada, que é só uma ‘gripezinha’. Não é. É muito sério”, ressalta.
Casada com Pedro, Leonira tem um filho caçula, Diogo, além das duas filhas. Os três irmãos se dividiram nos cuidados com a mãe no hospital, além do amparo ao pai, que aguardava a recuperação da esposa. A aposentada tem ainda quatro netos, um filho de Aline e os outros três, de Fabiana.
“Meu irmão fez uma promessa de não cortar o cabelo…”, diz Fabiana. “Ele está horrível”, completa Aline, rindo.
A alegria pela recuperação da mãe faz com que as filhas tratem com bom humor o momento após os nove meses de incerteza. Segundo elas, Leonira e Pedro “estão avisados”.
“Há 15 anos, ele nos deu um susto. Foi atropelado e ficou na UTI entre a vida e a morte. Agora eles estão avisados: o dia em que eles morrerem, lá pelos 90 e poucos anos, que caiam duros, de uma vez só. Chega de intubar, extubar, UTI”, brincam.
Leonira Veloso, de 66 anos, foi recepcionada pela família ao receber alta
Arquivo pessoal
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