500 dias sem eles: familiares relembram a ausência das 33.496 vítimas da Covid no RS

bailey aschimdt
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Desde a 1ª morte confirmada no estado até esta sexta (6), quase 67 famílias por dia perderam alguém para o coronavírus. Associação de apoio atende cerca de 1,4 mil parentes enlutados. Há 500 dias, famílias vivem o luto da perda de alguém por Covid-19 no Rio Grande do Sul. Já morreram 33.496 pessoas desde 24 de março de 2020. São 12 mil horas de ausência.
Morreram idosos e recém-nascidos, enfermeiros e professoras, prefeitos e vereadores.
Morreram mães dias após darem à luz, morreram jovens com câncer em remissão, morreram adolescentes sem comorbidade alguma.
Morreu o tenor que performava “Nessum Dorma” na Ospa.
Morreu a mãe da assistente social Paola Falceta e morreu o meu pai. Todos da mesma doença.
“Passados cinco meses, fortaleci algumas lições que aprendi com ela. Aprendi que toda vida é única e importa muito. Aprendi que, mesmo na dor, unidos no coletivo, somos potência. Somos solidariedade, somos choro compulsivo, somos empatia, somos sorrisos, somos conforto, somos resistência e luta. Mas aprendi também que nenhum dinheiro e poder neste mundo vale mais do que nossa dignidade a importância da nossa existência”, diz Paola, filha da Italira Suzana, e que também é vice-presidente da Associação de Vítimas e Familiares de Vítimas da Covid-19 (Avico Brasil).
Paola com os pais, Brauzulino e Italira Suzana, em sua formatura, em 2017
Arquivo Pessoal/POA Produções
67 mortes por dia, quase todos os dias
Nesses 500 dias, em apenas 12, logo no começo da pandemia, não foram registrados óbitos causados pelo coronavírus. Em todos os outros, alguma vítima de 494 cidades gaúchas entraram na contabilização diária da Secretaria Estadual da Saúde (SES).
Só Guabiju, Benjamin Constant do Sul e Novo Tiradentes não têm mortes confirmadas, conforme a SES.
“O meu irmão Guilherme completou 37 anos no dia em que foi entubado e morreu cinco dias depois. Sempre foi uma pessoa muito alegre, era um educador físico que amava dar aula. Os alunos amavam ele, assim como os amigos. Deixou a esposa e três filhos”, relata Gabriela Moraes dos Santos, 36 anos, irmã de Guilherme.
Gabriela Moraes dos Santos com o irmão Guilherme (à esquerda), a mãe, Márcia, e o outro irmão, Leandro
Arquivo Pessoal
Em 16 de março deste ano chegaram a serem registradas 502 mortes em um só dia. O pico desses óbitos, em 1º de abril, não era mentira. Era a realidade do pior momento da pandemia no estado.
A quantidade de vítimas equivale à população de São Luiz Gonzaga, cidade da Região Noroeste. Como se mais ou menos 67 morressem por dia.
“Meu pai não era uma estatística, meu pai era uma pessoa, assim como as 560 mil que já morreram no Brasil vítimas da Covid-19. Hoje eu transformo o meu luto em luta. Luta por justiça, luta por vacina, luta pela vida”, afirma a coreógrafa e professora Carolina Borges, filha do motorista Carlos Borges, o Pipoca, que morreu dias antes de completar 71 anos.
Carolina e Carlos Borges, o Pipoca, vítima da Covid poucos dias antes de completar 71 anos
Arquivo Pessoal
Rede de apoio
E houve quem se contaminou mas conseguiu se recuperar — ou está em recuperação. Não uma parcela pequena, mas quase 12% de toda a população residente no RS já foi infectada.
Para auxiliar tanto as famílias como as pessoas em recuperação, foi criada, em abril deste ano, em Porto Alegre, a Avico Brasil. Segundo Gustavo Bernardes, presidente da entidade e que também foi infectado, o intuito é representar a sociedade civil e cobrar iniciativas do estado em relação a todos os afetados pela pandemia.
Entre as áreas de atuação, duas se destacam: o auxílio jurídico e a ajuda psicológica.
“Identificamos, logo no começo da Avico, que teríamos que oferecer algum acompanhamento psicológico. Pessoas em sofrimento, que enfrentavam perdas. Logo conseguimos um grupo grande de voluntários, psicólogos que criaram grupos de apoio. E também tem a questão jurídica. Pessoas se endividaram com hospitais privados, questões de pensão de pessoas que sustavam a família e ela não sabia como recorrer, denúncias de oferecimento de medicação sem eficácia. Não entramos com a ação, mas encaminhamos aos órgãos, como a Defensoria Pública”, esclarece Gustavo.
Além da diretoria, composta por assessores, diretores e integrantes do departamento de antropologia da UFRGS que acompanham o trabalho, cerca de 1,4 mil pessoas estão cadastradas, no Brasil e no exterior, para se apoiarem mutuamente.
“Tem 20 milhões de pessoas com Covid [no Brasil], sem contar subnotificação. Os estudos indicam que 80% delas vão sofrer com sequelas, e teremos cerca de 15 milhões demandando sistema de saúde. Imagina essas pessoas no sistema. A doença não vai nos abandonar de uma hora pra outra. A consequência permanece”, comenta.
Eu sei. Há 20 dias, o meu pai também morreu por pneumonia desencadeada pela Covid-19. Fernando Braf Henning Júnior tinha 74 anos e era funcionário público aposentado.
Na semana anterior a ele ser diagnosticado com o coronavírus, eu havia perguntado se ele não gostaria de escrever a história dele. Como não houve tempo para isso, eu escrevo.
Foi filho único de mãe solo, já que o pai dele morreu em um acidente aéreo antes de ele nascer. Foi criado em Pelotas seguindo os passos do padrinho, que o adotou anos mais tarde.
Formou-se em Direito pela Universidade Federal de Pelotas, serviu à Justiça por duas décadas e depois passou a se dedicar à casa e à família. Teve quatro filhos do primeiro casamento, um filho do segundo — e a mim, a quem adotou como filho, e quem eu tenho orgulho de poder chamar de pai.
Fernando Henning e Matheus Beck
Arquivo Pessoal
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