O produtor musical João Carlos Botezelli, o Pelão, morreu nesta quarta-feira, 1º, aos 78 anos, vítima de infarto. O lendário produtor paulista foi responsável por alavancar as carreiras de Cartola, Adoniran Barbosa e Nelson Cavaquinho, gigantes do samba.

Nascido em São José do Rio Preto, interior de São Paulo, Pelão desembocou no mundo da música mesmo sem formação na área, depois de passar pela antiga Escola Prática de Agricultura, hoje um campus da USP em Pirassununga. Foi lá que ganhou o apelido, originalmente advindo de “Pele fina”, como era chamado pelos veteranos da universidade, que logo o promoveram ao aumentativo quando viram que o rapaz era casca grossa.

Ao trocar a atividade rural pela cultura, decidiu se embrenhar pelos bastidores da música: foi desde faz-tudo na orquestra do maestro Enrico Simonetti até funcionário do departamento de publicidade da gravadora RCA. De lá, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde, em contato com o produtor Milton Miranda, ofereceu de improviso aos executivos da gravadora um disco de Nelson Cavaquinho que imaginara ali mesmo. Assim nascia o disco que leva o nome do gigante do samba, obra que elevou Cavaquinho ao panteão da música brasileira. “É o Nelson dos bares, o verdadeiro, ele e o violão vertical e o toque de dois dedos, com o suor dele”, como descrito na biografia Pelão – A Revolução pela Música, escrita pelo jornalista Celso de Campos Jr.

O produtor musical Pelão ao lado de Nelson Cavaquinho//.

O nome do livro carrega uma simbologia: cansado da política, e com pretensões muito mais elevadas no ofício de produtor musical, Pelão decidiu que iria fazer revolução no Brasil através da música. Como? Gravando sambistas do morro em interpretações de suas próprias composições. Depois de Cavaquinho, “descobriu” Adoniran Barbosa, que, até os 64 anos, em 1974, não tinha nenhum disco gravado em estúdio. Da parceria surgiram os clássicos Saudosa MalocaSamba do Arnesto Trem das Onze – o sambista chegou a brincar, dizendo que o produtor era o “Pedro Álvares Cabral” de sua carreira musical. Em seguida, gravou Cartola, que, aos 65 anos, também não tinha um disco solo. O baluarte mangueirense entrou em estúdio, e de lá saíram O Sol Nascerá, Alvorada, Acontece, Alegria e outros tantos sambas irretocáveis.

O produtor musical Pelão ao lado do compositor CartolaEditora Garoa/Reprodução

“A verdadeira revolução só chegará quando a voz do povo for ouvida e reproduzida em sua essência”, pregava Pelão. Não é exagero dizer que o cenário da música brasileira seria outro se não tivesse travado “verdadeiras guerras contra ceguetas que dirigiam as gravadoras multinacionais”, como escreveu Aldir Blanc, vítima de Covid-19 ano passado, na contracapa da biografia de Campos Jr. Pelão deixa a esposa Maria Cristina, as filhas Bartira e Marianna e o neto Arthur.