SÃO PAULO – Apesar dos preços das ações serem considerados bastante atrativos por investidores após a forte pressão das últimas semanas com a queda do minério de ferro, o Credit Suisse ainda nota que há uma falta de apetite para investir no setor de mineração, conforme apontou o analista Caio Ribeiro em relatório. Mas destacou que outros nomes podem ser mais atrativos.

O analista se mantém “seletivamente construtivo” no setor de materiais básicos (que compreende mineradoras, siderúrgicas, papel e celulose), preferindo ações de siderúrgicas como CSN (CSNA3) e Usiminas (USIM5) aos papéis de mineradoras. Além disso, Ribeiro destaca que, enquanto as ações de papel e celulose parecem descontadas, a expectativa de novas ofertas no setor nos próximos meses leva a um menor entusiasmo.

“O sentimento claramente piorou ultimamente por uma variedade de razões. Observamos que as preocupações têm aumentado sobre os cortes na produção de aço bruto na China (que caiu 8% em julho na base anual), enquanto houve aperto na disponibilidade de crédito para incorporadores imobiliários e de infraestrutura no país no início deste ano, juntamente com um cenário sazonalmente mais fraco de atividade de construção nos meses de verão, que vem reduzindo a demanda por aço e levando as siderúrgicas a reduzir suas compras de minério de ferro”, aponta.

Enquanto isso, há dúvidas sobre se a volta das atividades de construção, que tradicionalmente começa em agosto, poderia ser atrasada devido ao novo surto de Covid-19 (apesar de haver boas notícias sobre o tema nesta segunda, com a China não reportando nenhum caso de Covid pela primeira vez em um mês). Cabe ressaltar que o ressurgimento do vírus interrompeu as atividades de construção em várias cidades, o que diminuiu a demanda por produtos siderúrgicos e minério de ferro, de acordo com a Fastmarkets.

“Além disso, notamos que os investidores estão se tornando mais negativos em relação às perspectivas para o Brasil, dadas as preocupações fiscais e as dificuldades em aprovar a reforma tributária, a incerteza sobre o cenário eleitoral para 2022 e o temor de um aumento mais rápido das taxas de juros para conter as pressões inflacionárias”, aponta Ribeiro.

Valuation interessante, mas com gatilhos de curto prazo?

Porém, apesar desses ventos contrários, o analista vê que o valuation no setor parece bastante atrativo e acredita que, uma vez que a poeira assente, pode haver oportunidades interessantes para investir.

Após a liquidação, o analista do Credit vê a Vale (VALE3) sendo negociada a um valuation descontado, a uma relação de 2 vezes a relação entre o valor da empresa e o lucro antes juros, impostos, depreciações e amortizações (EV/Ebitda) para 2022 e a CSN Mineração (CMIN3) em 2,3 vezes, levando em conta o preço médio do minério de ferro esperado pelo Credit de US$ 144 a tonelada. Vendo um múltiplo justo de 5 vezes a 5,5 vezes a relação entre EV/Ebitda para ambas as ações, em linha com a média histórica, os analistas veem os preços de VALE3 e CMIN3 precificando uma correção do minério de ferro para US$ 80 a US$ 85 a tonelada em 2022.

Usiminas e CSN, por sua vez, estão agora negociando a 2,5 vezes e 2,7 vezes, respectivamente, o EV/Ebitda esperado para 2022, enquanto a Gerdau está negociando a 5,5 vezes.

“Todas estão sendo negociados abaixo dos múltiplos históricos que estão próximos de 6 vezes e nossos números já incorporam uma queda de 20-25% nos preços médios do aço para 2022 versus 2021”. apontam.

No setor de papel e celulose, por sua vez, a Suzano (SUZB3) e a Klabin (KLBN11) estão sendo negociadas a 6,7 vezes e 8,3 vezes o múltiplo EV/Ebitda para 2022. “Assumindo um múltiplo justo para a Suzano de 7 vezes a 7,5 vezes e de 8 a 8,5 vezes para a Klabin, vemos os preços de ambas as ações em uma correção para cerca de US$ 500 a tonelada em média para 2022. Os preços spot de hardwood [celulose de fibra curta] na China estão em US$ 639 a tonelada”, apontam.

Porém, mesmo com os papéis a múltiplos atrativos, é preciso selecionar as ações, segundo Ribeiro. “As avaliações podem parecer baratas, mas sem gatilhos de curto prazo significativos, é improvável que essas ações recebam muito apoio dos investidores. Para o minério de ferro, a perspectiva parece muito mais desfavorável do que há alguns meses. Não há como saber se os cortes na produção de aço na China continuarão a ser aplicados ou se o governo aliviará essas restrições de produção se a atividade de construção aumentar”, avaliam.

Leia também: O que esperar para as ações de Vale, CSN Mineração e siderúrgicas com o “novo cenário” para o minério?

Ele também aponta que a oferta de minério de ferro é sazonalmente mais forte no segundo semestre, o que também é um mau presságio para os preços. “Embora a atividade de construção na China tenda a se recuperar em agosto / setembro e isso possa levar o minério de ferro a se recuperar um pouco, o momento dessa recuperação ainda é incerto [devido ao recente ressurgimento dos casos de Covid-19]. Por essas razões, somos menos construtivos quanto às perspectivas para a extração de minério de ferro”, aponta Ribeiro.

Nesse sentido, o analista destaca que Vale e CSN Mineração têm potencial para rendimentos de dividendos de dois dígitos em 2022 mas, com o minério de ferro em declínio, é difícil imaginar as ações superando o índice no curto prazo.

Já para as siderúrgicas, Ribeiro segue mais construtivo destacando que, embora entenda que os preços do aço no Brasil perderam algum fôlego e que alguns descontos seletivos foram aplicados, a demanda permanece muito firme e a dinâmica de lucros é muito forte no segundo semestre de 2021.

Os prêmios de paridade de importação voltaram recentemente para entre 5% e 10% (em linha com os níveis normalizados), o que reduz a probabilidade de pressão sobre os preços. “Além disso, o mercado parece estimar uma queda dramática nos preços do aço em 2022 (correção de mais de 30% em relação aos níveis atuais), o que neste ponto parece muito agressivo”, avalia.

Consequentemente, o Credit vê espaço para revisões dos lucros para cima, uma vez que as estimativas de consenso para 2022 parecem muito conservadoras. Ribeiro destaca que alguns investidores preferiram a Gerdau recentemente por não ser um exportador significativo de minério de ferro e devido à sua exposição ao mercado dos Estados Unidos (cerca de 20% a 25% do Ebitda), onde a dinâmica de oferta e demanda parece mais favorável e o pacote de infraestrutura pode fornecer mais estímulos à demanda.

“Embora concordemos que isso faz sentido em um ambiente de queda nos preços do minério de ferro, em um horizonte mais longo (12 meses) preferimos a Usiminas e a CSN por razões de valuation e porque vemos aços planos (usado na linha branca)  superando os longos no Brasil nessa janela, já que a escassez de semicondutores será gradativamente resolvido”, aponta. Cabe lembrar que Gerdau tem como especialidade a produção de aços longos usados, por exemplo, na construção civil.

O analista também aponta que os benefícios do projeto de lei de infraestrutura nos EUA levarão tempo para fazer efeito – “talvez uma história para o segundo semestre de 2022, no mínimo”.

Para as ações de celulose, embora alguns estivessem antecipando que uma recente melhora nas condições de demanda de papel na China poderia desencadear uma potencial recuperação dos preços da celulose, o Credit está menos convencido.

O analista acredita que a a entrada de oferta nos próximos meses (de cerca de 3,3 milhões de toneladas por ano da Bracell e MAPA, da Auraco) deve reduzir a receptividade dos compradores para aumentos adicionais.

“Portanto, embora esperemos relativa estabilidade para os preços da celulose no quarto trimestre, vemos os preços da celulose sob nova pressão a partir do primeiro trimestre de 2022. Ao mesmo tempo, se o sentimento em relação às perspectivas para o Brasil se deteriorar ainda mais e, consequentemente, o real se desvalorizar mais, Suzano e Klabin poderão ganhar algum apelo como hedge cambial. No entanto, dada a volatilidade inerente aos movimentos cambiais, não consideraríamos isso como um gatilho significativo de curto prazo para justificar o salto dessas ações agora”, aponta Ribeiro.

Cabe destacar que, ao menos para mineradoras, o cenário é diferente para o Bradesco BBI, que segue com visão positiva tanto para elas quanto para siderúrgicas, afirmando que o recente recuo nas ações criou uma boa oportunidade de compra, uma vez que os fundamentos permanecem sólidos.

Já o Itaú BBA fez ponderações sobre o setor antes mesmo da forte derrocada das ações do setor na semana passada. Os analistas do banco reduziram a recomendação para as ações de CSN e Usiminas de outperform para market perform,  (perspectiva de valorização dentro da média do mercado), destacando que as perspectivas de valorização da CSN e da Usiminas não representam proposições atraentes de risco e recompensa. O preço-alvo para CSN passou de R$ 61 para R$ 48 e para Usiminas passou de R$ 28 para R$ 24. Já a Gerdau é a favorita dos analistas no setor, justamente por ser uma empresa mais focada em aço.

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