Mesmo depois de 15 meses de pandemia, com mais de 570 mil mortes até ontem à noite, o governo federal ainda insiste em tratar vacina contra a Covid-19 como uma questão político-eleitoral.

Ano passado, o general Eduardo Pazuello comandou a Saúde na preferência pela cloroquina em vez da vacina. Atrasou a vacinação por sete meses. Foi o tempo que levou para responder a duas dezenas de ofertas de imunizantes de empresas como Pfizer, AstraZeneca e Fundação Butantan.

Pazuello, no entanto, só precisou de quatro semanas para contratar 400 milhões de doses de uma vacina que não existia por R$ 1,6 bilhão (US$ 200 milhões). Esse negócio obscuro, com corretagem privada nacional e intermediado por parlamentares governistas, militares e até um certo “conferencista da Paz mundial”, está sob investigação no Senado.

Há quatro meses na cadeira que foi de Pazuello, Marcelo Queiroga demonstra não ter um plano de vacina, mas já tem projeto político: acredita na chance de integrar o “time Bolsonaro” para a disputa eleitoral na Paraíba em 2022.

Sem coordenação com governadores e prefeitos, até hoje não conseguiu gerenciar o programa nacional de imunização. Quando ouve alguém falando que o ritmo lento de retomada da economia se deve aos atrasos na vacinação, Queiroga simplesmente finge que não é com ele — e culpa a “burocracia”.

Agora, atropelou-se entre a política pública na pandemia e a política partidária na Saúde. Resolveu alterar critérios e metodologia usados para distribuir vacina aos Estados. Até o mês passado, a referência adotada era o tamanho da população, indicado pelo IBGE, não importando o público-alvo ou do tipo de imunizante disponível.

Na quinta-feira, o Ministério da Saúde mudou a regra. Surpreendeu governadores e prefeitos ao abandonar o método de distribuição baseado na proporção populacional de cada Estado. Fez isso sem sequer divulgar os novos parâmetros, a nova metodologia usada, e, muito menos, os motivos da mudança em meio a uma crise pandêmica, marcada por uma escassez de vacina provocada pelo governo federal, que adiou as compras por sete meses.

O “método Queiroga” é opaco, mas no Congresso há quem perceba nele um objetivo eleitoral: tumultua o programa de vacinação ao reduzir uma fatia nas entregas de vacina aos estados mais populosos, e direciona as “sobras” aos redutos de interesse do governo, seguindo o mapa da campanha para a reeleição de Bolsonaro.

Numa situação de fartura de vacina, talvez nem fosse notado. Na escassez, agravada pela inépcia ministerial na gerência do estoque e no despacho para os Estados, o corte no rateio foi flagrado logo na estreia do “método Queiroga”, no último dia 3.

O governo paulista conferiu e constatou uma diferença de 50% entre a previsão de remessa da Saúde e o que efetivamente foi entregue ao Estado. Recebeu um lote de 228.150 imunizantes da Pfizer, o equivalente a 10% do total distribuído pela Saúde para todo o país, embora São Paulo abrigue 22,5% da população nacional. Levou o caso ao Supremo, com pedido de intervenção emergencial.

Desde que chegou ao ministério, Queiroga trata estados como São Paulo, Rio Grande do Sul, Bahia  e Ceará pela lente política de Bolsonaro. O presidente-candidato não enxerga uma população paulista ansiosa por vacina. Vê somente o governador João Doria, um potencial adversário na disputa pela presidência no ano que vem.