Jair Bolsonaro, é consenso até mesmo entre seus auxiliares, abusou do discurso contra as eleições, contra as instituições e de uso da força militar contra que o contraria. De tanto esticar a corda nas últimas semanas, o presidente conseguiu pressionar as Forças Armadas a tal ponto que seus comandantes foram obrigados a fazer seguidas manifestações — a maioria nos bastidores, em conversas com autoridades do Legislativo e do Judiciário — de compromisso com a democracia, algo que revelou o tom falacioso no golpismo palaciano.

Bolsonaro vem lutando com as ferramentas que tem para manter sua base fiel. Além de entregar o comando político do governo a Ciro Nogueira — o comando econômico já era de Arthur Lira há tempos, com o modelo de liberação de emendas parlamentares que esvaziou o poder do Planalto –, o presidente anunciou que pedirá o impeachment de ministros do STF ao Senado.

Se Bolsonaro fosse um presidente influente no Parlamento, a ameaça poderia meter medo no outro lado da Praça dos Três Poderes. Como Bolsonaro não tem apoio entre os senadores nem para controlar uma simples CPI, a coisa soou como bravata e virou motivo de piadas entre ministros do Supremo no fim de semana.

Há um oceano entre o que quer Bolsonaro e o que Rodrigo Pacheco, o presidente do Senado, aceita fazer. Pacheco é jurista por formação, defensor da democracia e adversário do presidente na disputa pelo Planalto em 2022. Como quase nada anda no Senado sem que seu presidente queira, o Planalto já sentiu que não terá meios de concretizar muitas ações ideológicas da agenda bolsonarista, a começar pela intimidação do STF por processos de impeachment.

É bom sinal que o presidente, ainda que para jogar para a torcida, tenha que recorrer a medidas dentro das regras do jogo para protestar contra integrantes de outro poder que desagradaram a sua base. Recorrer ao Senado contra ministros do STF — ou à Justiça, no caso de ofensas pessoais — faz parte do jogo democrático. Mostra que Bolsonaro não quer ou não tem mesmo os meios para dar uma de soberano, apesar das bravatas semanais.

Como o engajamento militar é cada vez menor e a dependência do centrão, cada vez maior, o presidente joga com as ferramentas que tem para falar ao bolsonarismo ainda crente. Ameaça, ataca, insulta os outros para parecer forte, mas só revela fraqueza. A oposição acredita que o presidente age assim na esperança de ter público fiel disposto a tumultuar as eleições de 2022 como fez Donald Trump nos Estados Unidos. Entre os bolsonaristas, fala-se no receio de prisão de mais aliados investigados no inquérito das fake news, sob a relatoria de Alexandre de Moraes.

No dia a dia, não há, no governo, um projeto que mobilize pessoalmente o presidente. Nem a piscicultura nem o nióbio ou o desenvolvimento do turismo no litoral. Como na Pandemia, que não liderou, o presidente não se ocupa da economia ou do social, não olha o agro nem o meio ambiente, não atua na educação ou na ciência e tecnologia.

Falar, aliás, é o que restou ao presidente que, seja por falta de orçamento, seja por falta de capacidade de assumir a liderança de projetos, já não governa. Vive a fazer cerimônias de entregas de medalhas, passeios de moto e a praticar a campanha antecipada na porta do Alvorada ou nos pontos de parada do avião presidencial país afora. Nesta segunda, a agenda de diversão foi em Formosa, onde disparou tiros no exercício militar das tropas.

Enquanto o presidente curte o lado doce do poder, a parte “executiva” do governo está hoje nas mãos de uns poucos ministros e de Arthur Lira, o maior aliado ainda comprometido com Bolsonaro e em fazer a agenda econômica de Paulo Guedes passar no Parlamento. O centrão dá as cartas.

Diz um auxiliar do presidente: “Este governo teria mais chances de reeleição se o presidente tirasse uns dois meses de folga e deixasse a base trabalhar em paz, sem distrações. Infelizmente, não podemos contar com isso, não é mesmo?”