A estratégia do presidente da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), de travar o processo de indicação do pastor presbiteriano André Mendonça para o Supremo Tribunal Federal (STF) começa a se voltar contra o próprio parlamentar. Apesar do apelo de colegas, integrantes do governo e de ministros do STF, Alcolumbre – que é judeu – tem tido uma postura irredutível de não pautar a sabatina de Mendonça, o nome “terrivelmente evangélico” escolhido pelo presidente Jair Bolsonaro para a Suprema Corte.

Pastores do Amapá ouvidos por VEJA se sentem traídos pelo senador, apontam discriminação na inércia de Alcolumbre e mais: ameaçam em alto e bom som não perdoá-lo nas urnas no ano que vem. A insatisfação chegou a grupos de WhatsApp, onde lideranças conservadoras têm espalhado uma série de mensagens contra Alcolumbre: “Um judeu contra um evangélico. Davi Alcolumbre não quer um evangélico no Supremo Federal”, diz uma delas.

Mensagem divulgada em grupos de WhatsApp diz que Alcolumbre não quer evangélico no STFWhatsApp/Reprodução

De junho para cá, Mendonça já se reuniu com mais de 70 senadores, mas até agora não foi recebido pessoalmente por Alcolumbre, que é responsável por conduzir o procedimento da escolha. Na prática, ao segurar a indicação, o senador trava todo o processo do ex-chefe da Advocacia-Geral da União (AGU), adiando indefinidamente a votação no plenário do Senado.

“Isso nos decepciona e nos parece discriminação. A luta do senador Davi não é contra André Mendonça ou contra o presidente Bolsonaro. Ele está lutando contra todo o povo cristão conservador – evangélicos e católicos – do Brasil. Estamos nos sentindo traídos”, repudia o Pastor Guaracy Junior, presidente estadual da Igreja do Evangelho Quadrangular. “Cristãos apoiaram Davi e fizeram dele senador. Sinceramente, acho que o eleitorado do Amapá não vai perdoá-lo. Ele não se elege mais.”

Para o pastor Besaliel Rodrigues, presidente da Associação dos Advogados Evangélicos do Estado do Amapá, se Alcolumbre seguir trabalhando contra a indicação de André Mendonça, o eleitorado do Amapá vai desembarcar da candidatura do senador no ano que vem. “Caso se confirme e ele frustre este projeto deste segmento social, ele será relegado ao ostracismo político. Nós, os evangélicos do Amapá, somos da base de apoio dele, mas ele está cometendo um erro de estratégia, pois na reta final de seu mandato resolveu agradar aos poderosos e dar as costas ao seu eleitorado.”

Presidente da Associação Pró-Evangélicos do Brasil e Exterior (Apebe), o Pastor Gesiel Oliveira endossa as críticas. Gesiel lembra que, na véspera da eleição em que Alcolumbre ganhou uma cadeira no Senado, em 2014, o testemunhou dizendo que “lutaria pelos interesses dos evangélicos”. “Lastimável foi a atitude que agora o senador manifesta em retardar os encaminhamentos para a sabatina do Pastor André Mendonça ao STF. Deixo um recado ao senador: tenha plena convicção que no Amapá, o povo evangélico, que hoje representa mais de 35% da população não vai esquecer em 2022 essa sua dolosa procrastinação de motivações nebulosas.”

VEJA procurou o gabinete e a assessoria de Alcolumbre ao longo da última quinta-feira, 2, e sexta-feira, 3, mas ainda não obteve resposta. No mês passado, ao ser questionado pessoalmente pela reportagem sobre o impasse, Alcolumbre desconversou: “Eu não resisto nada, são vocês que dizem”. Enquanto o senador não dá sinais de trégua, aliados de Mendonça estimam que o indicado de Bolsonaro conta com entre 50 e 55 votos, mais que os 41 necessários para garantir a sua aprovação. O retrospecto é amplamente favorável a André Mendonça – a última vez que o Senado rejeitou um nome indicado ao STF foi em 1894, no governo Floriano Peixoto. Na época, o Estado do Amapá nem existia.