Na capital de Israel, Tel Aviv, a dançarina americana Danielle (Kaelen Ohm) recebe um convite irrecusável: uma renomada companhia de dança de Nova York a quer entre os bailarinos. A caminho do aeroporto, porém, ela é vítima de um terrível atropelamento seguido de fuga e morre antes mesmo de chegar ao hospital. A partida repentina é dolorosamente sentida por muitos – em especial por seu marido, o guia turístico Segev Azulai (Lior Raz), cujo luto logo se transforma em sede de vingança quando ele descobre que a morte de Danielle não foi um acidente. A premissa de Hit & Run, thriller de nove episódios que acaba de chegar à Netflix, não é exatamente nova, mas insere no catálogo ocidental mais uma vigorosa leva de rostos, sotaques e vivências incomuns à dramaturgia americana. A bola da vez é Israel, e Lior Raz, protagonista e co-criador do programa, parece estar prestes a golear.

À frente e atrás das câmeras em Hit & Run, Raz, de 49 anos, repete a receita de sucesso de outra produção israelense da Netflix: a série Fauda (2020) um caso raríssimo de sucesso entre Israel e Palestina que aborda os conflitos da região. Em ambas, ele assina ao lado do roteirista Avi Issacharoff, que também é jornalista especializado na cobertura palestina. Fauda, um thriller político de três temporadas, é baseado nas experiências deles e de outros colegas que também serviram às Forças Armadas de Israel – por lei, todo cidadão israelense deve servir ao exército. Mais do que isso, a trama é centrada em dilemas humanos universais ao abarcar os lados opostos da questão. “Esse sucesso vem da construção de narrativas honestas e autênticas, não tentamos emular Hollywood”, disse Issacharroff a VEJA, em 2020.

LADOS OPOSTOS – Fauda: série sobre terrorismo que agrada a israelenses e palestinosNati Levi/Netflix

Diferentemente de Fauda, em Hit & Run o conflito é pessoal: “Essa é uma série sobre luto e perda, perseguição e vingança”, disse Raz ao The New York Post. Na pele de Segev, ele não é um mero guia turístico, mas um ex-combatente das forças especiais do exército de Israel – e, como tal, tem alguns truques e habilidades marciais na manga. O viúvo viaja para Nova York na esperança de descobrir os mistérios que rondam a morte de Danielle. Na metrópole americana, ele se alia a Ron (Gal Toren), amigo próximo que também era de Israel, e a jornalista Naomi Hicks (Sanaa Lathan), sua ex-namorada. “Quando eu era mais jovem e fui para Nova York pela primeira vez, fiquei chocado. Tudo estava se fechando sobre mim”, disse. “Tinha muitos prédios, estava chovendo e todas as pessoas nas ruas estavam se empurrando. Me senti como uma criança perdida que não sabia o que fazer, e é assim que queríamos que Segev se sentisse. Ele não quer estar lá, ele não entende as pessoas ou a cultura. Por meio de Segev, vemos como os israelenses e os americanos são diferentes.”

A história de Segev bebe da história pessoal de Raz. Assim como o protagonista, ele também esteve no Comando 217, a unidade secreta de elite contra-terrorismo das forças especiais israelenses. Para além disso, os paralelos com a vida real vão até a trágica e inesperada perda de um amor de longa data: em 1990, sua namorada Iris Azulai, com quem estava havia três anos, foi assassinada a facadas em Jerusalém. Em homenagem à ela, Segev tem seu sobrenome, e reproduz o sentimento de ter tido o chão tirado de si. “Nós entendemos o que é perda”, diz Raz. “Escrever é um processo de cura para nós e escrevemos com o coração.”

Nascido em Ma’ale Adummim, um assentamento israelense de 40.000 habitantes na Cisjordânia, Lior Raz cresceu falando árabe com o pai iraquiano. Aos 18 anos, se alistou ao Exército de Israel, e, em 1993, depois de perder a namorada, se mudou para os Estados Unidos para trabalhar como segurança de Arnold Schwarzenegger (ser o “cão de guarda” do ator e ex-governador da Califórnia foi “fascinante” para ele). No regresso à terra natal, em 1996, estudou na Escola de Artes Nissan Nativ em Tel Aviv. Trilíngue, conseguiu alguns papéis no teatro e na televisão israelense, mas foi só com o advento das plataformas de streaming que sua carreira no audiovisual alavancou de vez. A estreia de Fauda na Netflix rendeu seis prêmios Ophir (o mais importante de Israel), inclusive o de melhor ator, e a produção foi escolhida pelo The New York Times como a melhor série internacional de 2017. Agora com Hit & Run, Raz coloca em prática seu maior objetivo como ator e criador: “Trazer novas vozes, diferentes e estrangeiras, para fazer programas de TV.”