Redução significa cerca de 470 mil atendimentos que não foram realizados. Pesquisadores falam em risco de epidemia de saúde mental. Centro de Atendimento Psicossocial em Porto Alegre
Robson da Silveira/SMS/Arquivo PMPA
O Brasil teve redução de 28% em consultas de saúde mental durante a pandemia de Covid-19, o que representa cerca de 470 mil atendimentos não realizados, segundo a análise de dados do DataSUS realizada por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e publicado no periódico The Lancet Regional Health na semana passada.
O estudo pode ser conferido no site do Lancet
O artigo, projeto de doutorado do psicólogo Felipe Ornell, sob orientação de Lisia von Diemen, professora do Programa de Pós-Graduação em Psiquiatria e Ciências do Comportamento da UFRGS, alerta para o risco do agravamento nas condições de saúde mental do brasileiro.
“Em 2018 teve um relatório da Comissão Lancet de saúde mental, que eles apontaram que a gente já poderia estar se encaminhando pra uma pandemia de saúde mental”, afirma Felipe, em entrevista ao G1.
Na análise da projeção dos atendimentos estimados para o ano de 2020, os pesquisadores chegaram também a outros dados:
Redução de 38% nas internações psiquiátricas (as hospitalizações por risco de suicídio permaneceram estáveis).
Aumento de 36% nos atendimentos emergenciais (de pacientes que já eram atendidos nos Centros de Atenção Psicossocial – CAPS)
Aumento de 52% nos atendimentos domiciliares em saúde mental
Felipe comenta que o Brasil já tinha déficit no atendimento psicológico antes da pandemia. A mobilização pelo afastamento social acabou impactando ainda mais.
“Anualmente a gente percebe uma redução nos meses de férias janeiro e fevereiro, mas a queda de pacientes na pandemia é muito grave”, observa.
Segundo ele, pacientes com transtorno por uso de substâncias, esquizofrenia, transtorno bipolar grave, depressão grave, não são pacientes que uma consulta pontual vai resolver o problema e que precisam de acompanhamento.
“Temos indicativo de que a gente pode ter uma epidemia de saúde mental no futuro, sobretudo pela sobrecarga dos pacientes que podem ter tido o tratamento interrompido ou que desenvolveram um transtorno mental durante a pandemia, seja pelo isolamento, perda de renda, medo do vírus, luto”, afirma. 
‘Todos nós vamos apresentar sofrimento mental’
O psicólogo reforça a necessidade de ficar atento aos possíveis sinais de transtorno mental. “A gente precisa saber que ansiedade, a tristeza, são sintomas que a gente vai apresentar em alguns momentos da vida, e isso é ok, é esperado”, diz.  
Quando esses sentimentos deixam de ser esporádicos e começam a ser frequentes, é hora de procurar um atendimento.
“Todos nós vamos apresentar sofrimento mental em algum momento. E o principal preditor pra desenvolvimento de um transtorno mental é o sofrimento. Precisamos buscar ajuda. No caso de saúde mental é pecar pelo excesso, não pela falta, inclusive pra evitar alguns casos de suicídio, amplamente discutido agora no Setembro Amarelo”.
O Brasil conta com uma estrutura de 3.190 Centros de Atendimentos Psicossociais (CAPS), dos quais 222 são no RS. O CAPS é a porta de entrada para o atendimento de saúde mental, mas não é a única opção, segundo Felipe.
“Se tem CAPS na tua cidade busca o CAPS, se não tem, busca a atenção básica, busca alguma orientação dos profissionais que eles vão conseguir direcionar da melhor forma possível, mas não deixa de buscar”, afirma.
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