SÃO PAULO – Embora as realidades locais imperem em eleições municipais, o pleito encerrado no último domingo (29) ‒ exceto para os eleitores de Macapá (AP) ‒ traz sinalizações relevantes sobre como os partidos podem se organizar para a corrida presidencial de 2022.

Para analistas políticos ouvidos pelo InfoMoney, o resultado indica novos desafios para o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que pode ter que readequar seu discurso diante de um mercado eleitoral diferente daquele em que foi eleito.

Entre os que devem enfrentá-lo nas urnas, por outro lado, a construção de uma ampla coalizão é vista como melhor caminho, mas esbarra na falta de nomes naturais e nas dificuldades de se acomodar interesses difusos, além de incentivos contrários do próprio sistema.

“Bolsonaro conseguiu amenizar um pouco a sensação de derrota que teve no final do primeiro turno, mas seu comportamento não apaga esse problema”, observa Paulo Gama, analista político da XP Investimentos.

Já o analista político Carlos Eduardo Borenstein, da Arko Advice, acredita ser precipitado falar em derrota de Bolsonaro, mas que o bolsonarismo deve sair enfraquecido do pleito ‒ o que deve forçar o presidente a construir uma nova narrativa em sua busca por um novo mandato.

“A grande derrotada da eleição foi a narrativa da antipolítica tradicional, o que vai forçar o presidente Bolsonaro a reinventar sua agenda discursiva para a disputa de 2022”, avalia o especialista.

“Se, eventualmente, o centro, principalmente PSDB e DEM, for bem-sucedido na estratégia de construir um nome [para as eleições presidenciais], ele pode pôr em xeque a estratégia tanto de Bolsonaro quanto da esquerda, que se alimentam no ambiente de radicalização”, complementa.

Pleitos com um candidato à reeleição, diz Gama, costumam se aproximar de referendos sobre o mandato exercido pelo incumbente. Caso Bolsonaro confirme suas próprias indicações, este será o cenário que enfrentará na tentativa de permanecer na presidência por mais quatro anos.

“A população vai avaliar se quer a permanência desse projeto em curso ou não, e há menos força para a narrativa de um outsider“, aponta o analista da XP. Para ele, é por este motivo que as escolhas do presidente no campo fiscal nos próximos meses serão mais importantes para seu futuro do que o resultado das urnas nestas eleições municipais.

“O que vai ditar a reeleição ou não de Bolsonaro vai ser a situação da economia, que tende a impactar diretamente em sua popularidade. Os próximos meses talvez sejam decisivos para imaginarmos a presidência de Bolsonaro e a chance de se reeleger. A bifurcação está chegando cada vez mais perto e essa escolha de caminho que vai mostrar como ele chega em 2022”, diz.

No campo dos desafiantes, os dois analistas chamam atenção para uma maior fragmentação no campo da esquerda, com o desempenho ruim do PT colocando em xeque sua alegada hegemonia. Entre os que se posicionam mais ao centro, a aliança entre PSDB, DEM e MDB ainda terá de provar sua viabilidade ao longo do tempo e superar a ausência de um nome claro para representá-la em 2022.

Um dos grandes testes para essas movimentações será a eleição para a presidência da Câmara dos Deputados, em fevereiro. A disputa é hoje protagonizada por dois grupos: um próximo a Rodrigo Maia (DEM-RJ), atual presidente da casa legislativa, que tenta fazer seu sucessor, e outro ligado a Arthur Lira (PP-AL), líder do “centrão” e que se aproximou de Bolsonaro.

“Provavelmente, o próximo round visando a sucessão presidencial de 2022 vai ser a disputa pela mesa da Câmara. E muito provavelmente, pelos movimentos que estão acontecendo, PSDB, DEM e MDB devem estar juntos. Até porque são partidos que têm uma proximidade muito grande com Rodrigo Maia”, observa Borenstein.

“Por outro lado, partidos também do ‘centrão’, como PP, Republicanos e PSD, caminham para, se não for uma candidatura assumida com o apoio de Bolsonaro, de centro alternativa ao grupo de Maia”, complementa.

Para Gama, o pleito será um importante teste da habilidade política de Bolsonaro. Ele vislumbra três cenários possíveis: 1) o governo decidir interferir na disputa e eleger seu candidato; 2) o governo fazer gestos contidos em direção a um dos nomes, mantendo boa possibilidade para a construção de pontes com o futuro vencedor, independentemente de quem seja; e 3) o governo decidir apoiar enfaticamente um candidato que venha a ser derrotado.

Os dois primeiros seriam os melhores para o Palácio do Planalto. “O risco para o governo é entrar errado”, diz o analista, que cita como exemplo o movimento de Dilma Rousseff para eleger Arlindo Chinaglia (PT) na presidência da Câmara em 2015. Na época, a vitória de Eduardo Cunha (MDB) abriu caminho para um processo que culminaria na queda da mandatária.

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